THE DELAGOA BAY REVIEW

07/01/2017

O Delagoa Bay Review em 2017

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 10:51 am

Depois de um hiato, e de um curto periodo em que esteve “fechado”, o The Delagoa Bay Review volta neste início de 2017, de novo acessível a todos os que se derem à maçada de o ler. Aqui quase nada de novo, tudo mais ou menos na mesma, desde a sua abertura em 2010. Mais umas fotos, mais umas conversas ao desafio. À meia dúzia de apreciadores desta Casa, saudações.

 

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O vosso cronista no Green Quadrangle da Brown University, em Providence, EUA, Maio de 1982, ano da atribuição da primeira licenciatura, foto tirada com uma Nikon F, lente fixa de 70 mm, por uma colega sueca, Maud Linnea Kalborg.

Dito isto, o mundo mudou significativamente. Moçambique viu Armando Emílio Guebuza substituir-se por Filipe Nyusi, um seu delfim, o País quase colapsou entre dívidas e a tentativa de eliminar fisicamente a sua oposição, prevendo-se o prolongar desta agonia, até os americanos começarem a bombar gás e a pagar royalties. Com a população prevista para chegar aos 55 milhões nos próximos 25 anos…. boa sorte a todos. Em Portugal, a aliança absolutamente surreal, com a cereja no topo que tem sido Marcelo Rebelo de Sousa, para mais uma falência e um resgate caminha, aguardando-se pela default no serviço da dívida pública ou da mera incapacidade dos contribuintes de sustentar a despesa pública, num país de reformados e emigrados e endividados, que se espera decresça de 10 para 7 milhões em vinte anos. Nos Estados Unidos, Donald Trump, uma espécie de Kim Il Sung do Capitalismo, inicia um mandato dentro de poucas semanas, prometendo um conjunto de actos de circo dignos do nosso antigo Boswell-Wilkie. José Eduardo dos Santos afirmou que irá abandonar a política activa em 2018, o que tornará acompanhar os eventos em Angola ligeiramente mais interessante. O Médio Oriente continua a ser uma saga indecifrável. A China fez uma ilha no meio do Mar da China (que formalmente não é da China) e insiste que aquilo tudo lhe pertence.

Tudo isto e muito mais, com umas fotografias pelo meio, será tratado aqui, num português irreverentemente anti-o tal acordo da ortografia. E às vezes em inglês, pois tenho um leitor que não lê textos escritos em português.

19/02/2013

LOUIS ARMSTRONG E SAINT LOUIS BLUES EM MOÇAMBIQUE, 1971

A capa do disco de 33 rotações, dos anos 50, de Louis Armstrong, baseado num documentário feito pelo grande Ed Murrow.

A capa do disco de 33 rotações, dos anos 50, de Louis Armstrong, baseado num documentário feito pelo grande Ed Murrow.

Tive alguma sorte em ter tido o pai que tive. E uma das sortes foi, em boa parte por causa dele, ter crescido numa casa com livros bons para ler, o que me ajudou a criar o hábito de ler, que considero útil, mas também de poder conhecer e aprender a apreciar boa música. Descobri pela primeira vez, na casa que os meus pais alugavam na Polana, em Lourenço Marques – hoje Maputo, a capital de Moçambique – o prazer da música clássica e do jazz. Beethoven, Sinatra, Debussy, Gounot, Bizet, Louis Armstrong e Walter Wanderley, todos estavam disponíveis, num monte de discos de 33 rotações, que eu ia descobrindo e podia tocar num velho gira-discos que ligava ao velho rádio Telefunken do Pai Melo, anos antes de uma pequena bolha de prosperidade ter possibilitado a evolução para um sistema de stereofonia.

É sobre Louis Armstrong que eu queria escrever umas linhas. Aos dez anos de idade já conhecia vários dos seus discos e simplesmente adorava ouvir as suas baladas, que eram para mim autênticos hinos. Mas não só. A sua presença no filme Hello Dolly, com Barbra Streisand, que vi algumas vezes pendurado no camarote do lado direito do Cinema Scala, na baixa, e ouvi depois dezenas de vezes em casa, quando mais tarde consegui adquirir o disco, e ainda o impacto do que acabou por ser talvez um dos sucessos maiores e mais inesperados da sua carreira – What a Wonderful World – que saiu em 1968, tudo isso representava um dos grandes prazeres da vida de então para mim, alheio às vicissitudes e dramas que poderiam rodear uma já de si despreocupada pré-adolescência. Louis Armstrong foi o único artista por quem eu alguma vez chorei, quando, na primeira semana de Julho de 1971, soube pelo Rádio Clube que tinha falecido. Foi tragicómico, eu com 11 anos choroso o dia inteiro, a família toda a interrogar-se o que é que se passava comigo (típico, quando finalmente, e em confidência, pensava, revelei a causa da minha tristeza à Mãe Melo, toda a família e arredores se pôs a gozar comigo, o que me deixou revoltado).

De longe, para mim o símbolo e o expoente dessa era de descoberta e deslumbramento musical é a canção cuja gravação reproduzo em baixo, contida num disco que o Pai Melo tinha em casa, e que ainda tenho guardado volvidos estes anos todos, e que descobri por acaso esta noite que uma alma caridosa colocara no Youtube. E que deixo aqui como registo. Trata-se talvez do maior dos hinos do velho jazz americano, Saint Louis Blues, composto numa noite (supostamente) por W. C. Handy.

Aqui gravado ao vivo no Lewisohn Stadium em Nova Iorque em 14 de Julho de 1956, por nada menos que Louis Armstrong e a sua banda de então, os All Stars, acompanhados pela Orquestra Sinfónica de Nova Iorque, dirigida pelo incomparável Leonard Bernstein. Na audiência, sentado à frente, nada menos que o próprio W.C. Handy, então com 83 anos e já cego.

Absolutamente sublime.

15/08/2012

SÓ SE VIVE UMA VEZ

Filed under: Frank Sinatra, Sinatra em Moçambique — ABM @ 9:48 pm

A Voz.

Do meu ponto de vista, este foi o mais memorável concerto de Sinatra. Foi no Madison Square Garden em Nova Iorque, na noite de domingo, dia 13 de Outubro de 1974. Dois meses antes, nos EUA, Richard Nixon demitiu-se de presidente dos EUA em desgraça, na sequência do escândalo de Watergate. Um mês antes, os mandantes do golpe de estado militar em Portugal entregaram o governo do então Estado de Moçambique, onde eu nascera e vivia em infantil e iludida felicidade, aos comissários da Frelimo, depois de um acordo assinado num país ao Norte e que foi celebrado em Lourenço Marques de forma digamos que politicamente menos correcta. E uma semana e um dia depois deste concerto em Nova Iorque, uma qualquer altercação entre militares na baixa de Lourenço Marques descambou em mais um incidente grave, acelerando o êxodo maciço dos brancos de Moçambique, de súbito tornados personnas non gratas. Na Ásia, os norte-americanos perdiam o pulso ao Vietname do Sul, que deixariam precisamente no dia 25 de Abril de 1975, o mesmo dia em que, já eu em Coimbra a estudar num liceu e a nadar, os portugueses elegiam uma Assembleia Constituinte, desferindo a primeira machadada no plano comunista de simplesmente tomar o poder. Ainda assim tentaram. Até ao fim do outono de 1975, o país estaria a ferro e fogo, a seguir viria a República Socialista, uma palhaçada medíocre, tépida e demagoga que só entraria em falência técnica em meados de 2010 com José Sócrates. Ao lado do Vietname, no Laos, ainda em 75, um obscuro general comunista, Pol Pot, iniciou um dos grandes e mais insanes massacres do Comunismo no Século XX, que em dois anos chegou a um total estimado de dois milhões de pessoas deliberadamente mortas.

Estes foram tempos não menos memoráveis para um jovem com 14 anos de idade, o sétimo de oito filhos dum casal açoriano com um marcado sentido de aventura “imperial”, que despertava cedo para o mundo e para os verdadeiros desafios da vida.

Mas Frank Sinatra, que aprendi a gostar de ouvir com o meu pai no seu modesto gira-discos em Lourenço Marques, é Sinatra. Inconfundível, inimitável, genial, o seu repertório o luxo de uma geração. Em 1975, em Coimbra, com 15 anos de idade, matei-me em poupanças e nem sei bem como, comprei um disco da Voz, que ouvi vezes sem conta e com o qual de olhos fechados celebrava a vida e o futuro enquanto tudo se parecia estar literalmente a desmoronar em meu redor. Não desisti. Nada disso. Ainda o tenho. O disco de Sinatra resume o concerto que, graças a um simpático senhor no Youtube, se pode ver e ouvir em baixo.

E cujo hino, My Way, dedico, um tanto parola mas genuína e sentidamente a algumas pessoas:

Ao Manuel Petrakakis, que partilha o meu apreço sinatriano e me fazia o favor de o tocar quando eu ia para a Costa do Sol comer os camarões no restaurante dele nas noites quentes da agora Maputo.

Ao grande Kok Nam, um grande homem que fazia grande fotografia, relação do meu pai que também foi minha, que esta semana foi cedo demais e cuja vida pretendo celebrar mais uma vez.

Ao Luis Nhachote, que mantém acesa a chama do grande jornalismo em Moçambique quando parece que há gente que se prostitui por duas moedas.

Ao meu pai Melo, que me ensinou uns truques para encarar a vida.

Ao meu irmão Chico.

04/01/2012

O RITUAL DOS FERIADOS DO NATAL E DO ANO NOVO

Filed under: António Botelho de Melo — Etiquetas: — ABM @ 10:06 pm

Um Cadillac 1958, decorado para as Festas.

Já estou saturado disto, e vou explicar o quê e porquê.

Eu já vivi em vários países e neles passei anos ou a trabalhar, mas também de férias e Natal, ano novo, etc.

Mas Portugal nisto bate o recorde.

“Isto”, é a mania de os meios de comunicação social portugueses, e aqui destaco as estações de televisão, de acharem que, ao nos avisarem das formas mais repetidas e escabrosas possíveis, conseguem afectar o comportamento das massas no sentido de conduzirem de forma a não se matarem ou os outros.

À partida nada teria contra. A sinistralidade automóvel é uma infeliz ocorrência, infeliz mas inevitável, dado que qualquer pessoa que pode tem e utiliza um automóvel para as suas deslocações.

E em Portugal existe de facto amplíssima evidência de que os condutores portugueses manifestam uma certa tendência para a bestialidade comportamental quando estão sentados nas suas viaturas a ir para algum lado.

Mas – e eis o meu “problema” – há alturas e maneiras de fazer as coisas. O que se tem feito em Portugal é, a meu ver, patético.

Uns dias antes do Natal, anuncia-se habitualmente uma gigantesca (já de si caricato dados os parcos recursos e os salários miserandos dos nossos oficiais e forças policiais) “mega-operação” de fiscalização das estradas nacionais.

Nestas alturas, lá aparece a meio do noticiário um ministro qualquer ou, mais habitualmente, um bem-falante comissário qualquer das forças policiais, a tentar ser simpático, dizendo que, este Natal, vai haver um polícia em cada esquina, um carro-patrulha em cada estrada, vários helicópteros a vigiarem-nos, operações auto-stop que vão apanhar os bêbados que se atreverem a conduzir na estrada depois daquela 24ª Superbockzita.

Habitualmente, terminam com uma série daqueles conselhos que eu já sabia quando deixei o triciclo e comecei a aprender a andar de bicicleta: verifique os pneus do carro, não conduza bêbado, conduza “defensivamente” (o que quer que isso queira dizer num país destes), não páre no meio da rua para fumar um cigarrinho, não fale no té-lé-lé enquanto conduz, bla bla bli, bla bla blá.

Não conheço estudos destas coisas. Mas -sinceramente – duvido imensíssimo  da eficácia destes avisos avulsos, dirigidos a uma corja automobilizada que passa quase o ano inteiro a cometer alegremente os maiores atentados nas estradas nacionais, e de quem se espera depois que, durante as férias de Natal e ano novo, subitamente se convertam numa espécie de monges budistas, e que, se nunca o fizeram antes, de repente passem a apertar o cinto, a ter o seguro em dia e a deixarem de conduzir a cem à hora na faixa do meio das auto-estradas com um pisca ligado, ignorando soberanamente pessoas como eu que lhes passam e que, pelo menos mentalmente, anotam apelidos profusos e pouco lisonjeiros, dirigidos às suas progenitoras.

Não. Eu acho que essas pessoas, e que são muitas nesta terra, estão-se positivamente a marimbar para estes avisos e estas estatísticas e vão continuar a comportar-se tal e qualmente como dantes.

A meu ver, essa gente assim só vai à paulada, “paulada” aqui definida como medidas com eficácia real, não com a Sôra comissária da PSP/GNR/Autoridade não sei de quantos de olho pintado a civilmente explicar-lhes as coisas num noticiário.

Mas isso não é o pior.

O pior é que, quando se aproxima o Natal ou o fim do ano, como se já não fosse suficiente esta cacofonia securitária pseudo-noticiária dirigida aos incumpridores profissionais, as estações e os relações públicas destas organizações partem para programas de elaborado terror estatístico, suponho que para ver se nos assustam “mesmo”.

Assim, no dia de Natal, a família toda reunida a olhar com alguma surpresa para o perú assado de pernocas para o ar ali na mesa apesar das sucessivas medidas primeiro do Sócrates e depois do Passos Coelho para que lá nada esteja, na televisão ali ao lado, cada noticiário não começa com uma doce e quente mensagem de boas festas, uma bela árvore de Natal qualquer que um simpático cidadão se lembrou de decorar a suas custas, ou a milionésima alusão à pobreza digna da manjedoura onde terá nascido em Belém o Salvador.

Não, não.

A primeira coisa que sai com urgência de última hora da boca do jornalista é a estatísticazinha necrológico-rodoviária da “operação” das polícias e mais uns conselhozitos para o caso de algum asno mais autista ainda não as ter ouvido na semana anterior.

Estas “operações” habitualmente têm nomes mediáticos ainda que um tanto para o frântico-patético mas firme: qualquer coisa como “Operação Natal Branco” ou “Operação Festa Segura”.

O fulano que lê as notícias no dia de Natal abre as hostilidades com uma estatística que é suposto fazer-me pensar duas vezes antes de atacar a perna do perú assado: “Boa noite, volvidas 18 horas após do início da Operação Perú Tranquilo, já se contabilizaram setecentos e quarenta e dois acidentes, dos quais noventa e nove graves, de que resultaram 187 feridos e doze mortos.  Comparado com igual dia do ano passado, os dados agravaram-se, traduzindo-se em mais doze feridos, dos quais um grave, mais trinta e sete acidentes que no ano passado mas felizmente menos um morto.  Junto das portagens da auto-estrada de Aveiras de Cima encontra-se o repórter especial Joaquim Tiralinhas com o Major Lopes Sepúlveda da GNR/PSP/Autoridade Motorizada Nacional. Atão Joaquim, como vão as coisas por ai? e o que diz desta taxa de mortalidade nas nossas estradas?”

E a seguir o Joaquim repete tudo o que o colega diz antes, e depois vem o nosso oficial Sepúlveda repetir tudo outra vez, com mais uns conselhozitos ao pessoal, enquanto os carros vão passando em procissão desenfreada.

E durante toda a época das festas, é assim.

Sinceramente: não há pachorra.

Nos Estados Unidos, onde vivi uma vida, só se falava no trânsito nas notícias quando um tipo qualquer desatava aos tiros na auto-estrada, quando um avião aterrava na via pública ou quando caía uma ponte.

Em Moçambique e na África do Sul, onde a sinistralidade, aí sim, é verdadeiramente espectacular comparada com as mais tépidas estatísticas portuguesas, as notícias de acidentes e mortos e feridos só chegam perto da ordem do dia quando é algo de nota. E por nota digamos…dez mortos num só acidente.

Abaixo disso simplesmente não é “notícia”, e acho isso assim muito bem. Se eu tentasse acompanhar as desgraças todas que ocorrem no mundo a cada momento perdia a conta e dava em maluco.

Especialmente entre o Natal e o ano novo.

E realmente não vejo nestes países os média a fazer campanha hora a hora no Natal a ver se todos nos comportamos, para no resto do ano pura e simplesmente ignorarem o problema. Isto parece ser uma invenção portuguesa, certamente copiada de um outro qualquer país que alguém achou que parecia mais civilizado que os ocidental-ibéricos.

Portugal é o país onde já vi ao vivo na televisão a polícia a dar prémios e dinheiro junto das discotecas e bares da 24 de Julho em Lisboa por verificarem que, numa inspecção de estrada, os condutores não possuiam alcoól no sangue.

Obviamente azar meu, que não bebo e nunca ninguém me deu nada por isso.

Nem eu espero receber nada, pois afinal esta é a condição em que somos supostos conduzir as nossas viaturas. E, já me ensinara o Pai Melo em menino, ninguém deve ser recompensado por fazer o que se espera que todos e cada um de nós faça normalmente.

Isso assim já parece o que acontece com os maquinista da CP, que recebem um “prémio” por aparecerem a horas no emprego.

Pensei nisto tudo quando há bocado li o seguinte, num mistificante sítio em língua portuguesa chamado Boas Notícias.

Cito:

Desde 1960 que o número de vítimas mortais resultantes de acidentes rodoviários não era tão baixo em Portugal. O ano passado, os números caíram abaixo da fasquia das 700 mortes na estrada, o que não acontecia há mais de cinco décadas.

Os dados, ainda provisórios, foram divulgados esta terça-feira [3 de Janeiro de 2012] pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR). De acordo com a entidade, em 2011, o número de mortos em consequência de acidentes de viação diminuiu 7% face a 2010.

O balanço demonstra resultados semelhantes aos obtidos em meados dos anos 60, indicador positivo visto que, à época, o parque automóvel era bastante inferior ao atual: existiam apenas 212 mil veículos em circulação, muito menos do que os seis milhões que hoje percorrem as estradas nacionais.

Além disso, nos últimos dez anos, o número de mortos e de feridos graves registado diariamente diminuiu para metade. Em 2002 registaram-se, em média, 4 mortos e 13 feridos graves por dia, ao passo que em 2011 os números desceram para 2 e 7, respetivamente.

No ano que terminou recentemente, aponta a ANSR, assinalaram-se 690 vítimas mortais, 2.416 feridos graves e 39.215 feridos ligeiros.

Eu consigo entender porque é que esta tal de ANSR se deva e tenha que preocupar com estas coisas, e que tenha que seguir estas estatísticas, que no caso português, dizem-me, têm um cunho algo terceiro-mundista, provavelmente algo a ver com os seus habitantes, os seus peculiares hábitos afro-latinos e o facto de que as estradas que não se pagam tendem a ter padrões de construção e manutenção burundianos.

Ao compararem esses dados com as médias europeias, ficam arrepiados, e acham que têm que fazer alguma coisa. Pois: tragam um milhão de condutores suecos para Portugal. Talvez a coisa assim melhore.

Este ano fiz uma daquelas resoluções para o próximo Natal e Ano Novo: deixarei de ver os telejornais. Não preciso que mas estraguem com mensagens pseudo-orwellianas que não me são dirigidas e que a meu ver valem pouco ou nada.

Quero comer o perú em paz com a família e os amigos.

Se querem ter uma taxa de zero de sinistralidade, deixem de usar os noticiários para nos chatear e achincalhar com informação que de notícia nada tem, coloquem o exército na rua e baixem os limites de velocidade durante dez dias.

E mesmo aí não sei se o pepino torcerá.

31/12/2011

FELIZ ANO NOVO – 2012

A todos, os meus desejos de um ano com sucesso e saúde.

Da Graça Veiga, uma acácia em flor na Ilha do Ibo, no Norte de Moçambique.

ENTRADAS EM 2012 COM A BANDA DE ROSY AND RALPH AND THE SCARECROWS

Felizes Entradas EM 2012 - se possível.

 

Boas entradas a todos os exmos. Leitores. Cá estamos para dialogar neste que promete ser um ano de arromba.

O início de 2012, ou melhor, o fim do ano de 2011, foi para mim assinalado por uma discreta mensagem pelo Feicebuque do Sr. Ralph Pretorius, desde a Itália.  Não estava a ver quem era, até abrir a sua página e fiquei literalmente de boca aberta.

Era Ralph, da banda Ralph and Rosy and the Scarecrows.

Wow!

Vou explicar.

A banda Ralph and Rosy and the Scarecrows, foto tirada no no palco do Dancing Aquário na Rua Araújo em Lourenço Marques, no final dos anos 1960. Da esquerda: Maurílio, Amaro, Rosy, Rui, Ralph e António Pedro Rocha.

Para além do desporto, o Grupo Desportivo Lourenço Marques tinha uma vida social bastante activa, à semelhança da maioria dos restantes clubes da cidade.  Provavelmente os momentos mais altos dessa actividade eram o Carnaval e a Festa de Passagem de ano. Onde, por se estar em plena estação quente e de chuva, acontecia tudo, desde noites de calor de fugir a trombas de água que deixavam a zona onde se dançava encharcada (houve um ano em que choveu tanto que a piscina grande transbordou de água para o relvado).

Mas houve um ano que nunca esqueci.

Foi o ano em que a banda de Rosy and Ralph tocaram no Desportivo no baile de passagem de ano. Tendo eu nascido em 1960, na altura eu devia ter entre os 8 e os 10 anos de idade. Na altura eu não percebia nada de nada nem sabia quem ia tocar.

Mas quando a banda se colocou no pequeno palco improvisado na esplanada do Desportivo e começou a tocar, fiquei absolutamente hipnotizado pela sua música em que a Rosy era a “lead singer”.

A banda de Ralph Pretorius - Rosy Ralph & the Scarecrows no Dancing Aquário, cujo gerente era o Gil Ogeda. Oh, pois. Esse mesmo.

Até esta noite de passagem de ano, foi uma memória que nunca esqueci, mas que era ténue em termos específicos, até ver estas fotos do Ralph.

O Ralph diz que a Rosy já não está connosco desde há quatro anos atrás. Mas não é verdade. Nas minhas memórias ela estará sempre presente, linda, enigmática e perfeita na forma como ela cantou e dançou naquela noite duas vezes “The age of Aquarius” e “Let the Sun Shine In”.

Que é também o meu signo.

Fiquei nas estrelas.

Um Feliz 2012 para Ralph e a Família Pretorius e para todos.

E muito obrigado pelas boas memórias. Das melhores.

A banda tocou em vários países, e aqui na Itália. Da esquerda: Rosy, Silvio,Claudio,Luca Ralph e Johnny.

A canção de que nunca mais me esqueço ter sido tocada pela Ralph & Rosy em Lourenço Marques:

23/12/2011

BOAS FESTAS

Dedico a todos os que visitam esta Casa.

21/12/2011

PRAIA DA POLANA EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 1960

Um postal recordando as férias do Natal na praia. Há quinhentos anos.

 

Junto do Pavilhão de Chá da Polana (demolido em 1968). Ao fundo, o Clube Naval. Para ver este postal no tamanho máximo, prima na imagem duas vezes com o rato do seu computador.

 

 

NATAL EM CASCAIS

 

Cascais, junto da Cidadela, há maningue tempo mesmo. Não é bem Moçambique mas este ano serve. Foto do arquivo histórico municipal de Cascais, agora disponível na internet. Para ver esta fotografia em tamanho máximo, prima na imagem duas vezes com o rato do seu computador.

05/12/2011

SOBRE AS MINHAS PRENDAS DE NATAL EM 2011

Natal português sem bacalhau norueguês não é Natal.

Que fique registado que este Natal e final de ano assinalarão o início do primeiro annus horribilis português em muitas décadas. Se muito boa gente no rectângulo lusitano atér agora ainda andou a queimar (estupidamente, na minha visão reconhecidamente prudente e conomicista) os últimos cartuchos em termos dos seus cada vez mais duvidosos empregos, das suas poupanças ou ainda do que restou dos subsídios de desemprego e – apesar de tudo – o corte de apenas um dos “subsídios” salariais para quem trabalha no “sector público”, daqui a um ano será radicalmente diferente. Para muito pior. Ao ponto de parecer que as forças policiais, linha de frente da ordem e paz domésticas, senão da chamada legalidade democrática (whatever that may mean) se preparam para eventuais perturbações sérias da ordem pública em 2012, treinando e comprando mais uns cassetetes (uma palavra francesa que elegantemente descreve um pau para dar nos cornos a quem não acate a ordem dum agente da nossa segurança).

Há muito que eu simplesmente sublimei o lado material do espírito natalício, que tende a ser um exercício de desperdício caro, para outros e especialmente para mim. Para dar um exemplo, há dois anos, alguém ofereceu-me uma máquina de filmar de vídeo Sony do melhor que havia. Usei-a uma vez, para filmar a festa de aniversário do piriquito de um amigo.

Isto para dizer que, especialmente hoje em dia, dada a massificação das comunicações e o seu preço menos usurpador, um simples email ou um telefonema para mim é, felizmente, mais do que suficiente – uma coisa simples, pois apresentações em filmes e apresentações elaboradas em Powerpoint que não acaba e passo o Natal a tentar responder ao que recebo, habitualmente sem grande sucesso e às tantas irritado.

Uma consequência adicional do crescente uso e facilidade no envio de mensagens electrónicas, adicionalmente, é que, ao contrário de antigamente, quando as pessoas compravam cartões e prendas, que dava trabalho e custava dinheiro, hoje qualquer pessoa manda um cartão de Natal electrónico a qualquer pessoa. As empresas, no que considero uma medida que faz todo o sentido, estão a migrar para o formato electrónico, o que poupa dinheiro e árvores e trabalho e vai dar ao mesmo. Mas aí está outro perigo. Outro dia recebi (e já estou a receber, não percebo porquê) um cartão de Natal do Banco Santander, onde nunca tive conta. É bonito, todo encarnado, e a nevezinha electrónica, que também arranjei premindo uma opção qualquer há um ano, também existe neste blogue.

Claro que se algum amigo mais abonado quiser, sugiro que não me dê nada de electrónico, nem roupa nem útil. Tudo isso, admito, tenho.

O que eu gostava mesmo de ter é o quadro em baixo, do Senhor Malangatana, que vai a leilão nos meus amigos do Palácio do Correio Velho, em Lisboa, que de vez em quando me mandam uma mensagem a dar conta do que vão leiloar. Este leilão então é um luxo, tem um pouco de tudo, vários Malangatanas e até um Arpad-Szénes a preço de saldo.

Este, dizem os especialistas, deverá ir por entre uns meros 10 e uns mais substanciais 20 mil euros, mais Ivas e alcavalas.

Ah, mas que prenda seria. Chegar a casa e dar de caras com uma obra do Mestre.

Claro que, até lá, esperarei sentado ficarei a apreciar aqui esta imagem da obra do nosso grande Mestre de Moçambique, que ele pintou em 1982, cujas cores e caras menos enfadonhas que o habitual, me seduziram.

 

Malangatana, 1982. Ora eis uma prenda de Natal. Alternativamente, mande-me um email simples. A simpatia e amizade não têm preço. Se quiser ver a obra em tamanho maior, prima na imagem duas vezes com o rato do seu computador.

01/11/2011

A AMÉRICA QUE EU JÁ NÃO RECONHEÇO

Quadro copiado com vénia do Economist, indicando a divisão da riqueza acumulada por fatia da população.

Depois de ter ido literalmente como refugiado para os Estados Unidos em 1977, após o desastre da Descolonização portuguesa, li vivi durante quase quinze anos.

No geral, foi muito bom para mim e para a minha família.

Mas as minhas aspirações eram outras.

Em 1990 iniciei uma espécie de regresso a África, que ainda levou dez anos, com alguns interregnos por Portugal. O regresso não foi regresso e, à sua maneira, a elite portuguesa criou o seu próprio descalabro nos últimos quinze anos.

No entretanto, nos EUA, houve Clinton e Bush e agora Obama. Houve o ataque terrorista em Setembro de 2001, as guerras no Médio Oriente, a maluqueira fiscal quase total e a quase falência do Estado norte-americano, precedida do escândalo total da Enron, o fim da Arthur Andersen & Co., o desfalecimento quase imediato dos mercados financeiros norte-americano e mundial, iniciado com a chamada crise do sub-prime e a falência, numa sexta-feira, do banco Lehman Brothers.

Ainda não se sabe onde isto tudo vai parar. O mundo – o nosso mundo – permanece à beira do abismo.

Agora, aproxima-se a eleição presidenciall de 2012.

É mais do que claro que Barack Obama rigorosamente nada teve que ver com as tragédias que herdou, e as quais não têm soluções fáceis e muito menos paleativos.

Mas ao que eu tenho assistido, do outro lado do Atlântico, é às polémicas mais surreais, especialmente vindas do lado da direita norte-americana. Que, lamentavelmente, em boa parte porque me considero um conservador, traduzem um delírio perigoso da parte de pessoas que parece que ainda não entenderam bem o buraco profundo em que a América, e o mundo, estão metidos.

A tentação fácil é considerar que a substituição do actual presidente ajudaria a resolver os problemas.

Eu acho que o começo da resolução dos problemas que agora afogam uma boa parte do mundo ocidental pouco tem que ver com a eleição presidencial norte-americana.

Pelo contrário.

Eu já não reconheço esta América.

E começo a pensar que já não reconheço este mundo.

(No dia 8 de Outubro, a organização Democratas no Estrangeiro -“Democrats Abroad”- organizou um evento intitulado “Vozes por Obama” na Galeria Nikki Diana Marquandt em Paris.  No evento, um dos que falou foi o autor norte-americano Jake Lamar. Em baixo, um excerto do que ele disse, gravado no Atelier La Main d’Or. Este, pelo menos, diz que não está desiludido).

26/05/2011

BOA NOITE, MANUELA ARRAIANO

Filed under: António Botelho de Melo, In Memoriam, Manuela Arraiano — ABM @ 3:13 am

Tardiamente, por uma nota enviada a meio da noite de ontem (24 de Maio) pelo Rogério Carreira, tomei conhecimento de que a Manuela Arraiano, que trabalhou no Rádio Clube de Moçambique,  havia falecido em Bruxelas, onde residia, no dia 15 de Maio de 2011.

A notícia motivou-me para escrever esta curta nota.

Eu nasci em 1960. Desde cedo me aficionei a escutar as emissões do Rádio Clube de Moçambique, que, acredito hoje reunia um conjunto de profissionais e de talentos invulgares e em quase total desproporção àquilo que um blogueiro que li hoje chamava, com algum sentido de humor, “a pequena tribo branca da África Oriental”. Ainda hoje, se me sentar com quem se lembra, consigo facilmente recordar os detalhes mais ínfimos de muito do que escutei no Rádio Clube de Moçambique.

E isso devia-se, mais do que tudo, à qualidade de quem lá mandava e trabalhava.

Não há outra explicação.

Saí de Moçambique pela primeira vez em Fevereiro de 1975, com 15 anos de idade. Pelo que o meu consumo até à data, do que o RCM produzia, foi feito com os ouvidos e a mente de um miudo e de um jovem adolescente. Mas os anos deram-me conhecimento e perspectiva. Pude comparar notas.

Na altura, não sabia quem era a Manuela Arraiano. Infelizmente, ainda não sei. Pouco ou nada encontro. Acredito que fazia parte da equipa dos magníficos que faziam a rádio em Moçambique.

Só há relativamente pouco tempo é que aprendi que era dela a voz lânguida e maternal que, com um intimismo que mesmo então já me despertava qualquer coisa, a meio da noite, já todos a dormir lá em casa (e se o pai Melo sonhasse que eu àquela hora estava debaixo dos lençóis a escutar o rádio eu correria sérios riscos disciplinares), creio que cerca da meia noite e meia, assinalava o fecho da emissão da noite com uma despedida de todos quantos estariam de pé ou a escutar a transmissão.

Noctívago latente, claro que eu conhecia de cor esse ritual. De facto, eu deitava-me mais tarde pois ficava a ler um livro qualquer até quase às duas horas da manhã. Habitualmente, eu esperava por esse fecho de emissão para mudar directamente para uma emissão da SABC, em onda curta e naquela esquisita mistura de inglês e Afrikaans, a qual continuava até pelo menos eu adormecer.

O curioso – e aí reside um aspecto peculiar, é que, noite após noite, eu não mudava do RCM para a SABC sem primeiro escutar na totalidade o que me parecia uma espécie de balada de despedida da estação – na voz da Manuela Arraiano. Acho que logo a seguir o RCM ainda emitia o hino nacional português, aquela invectiva republicana e anti-britânica do Kheil. Mas esse não escutava. Não conseguia. Pois era tão estridente e tão totalmente dissonante com o ambiente tranquilo e escuro da hora, que chocava.

Certamente dissonante em relação à mensagem proferida pela Manuela, com aquela música tristonha como pano de fundo.

Muitos, muitos anos depois, por causa das modernices da internet e dos que se ainda lembravam e queriam relembrar, pude escutar novamente a algo mistica mensagem de boas noites de Manuela Arraiano no Rádio Clube de Moçambique.

E senti algo.

Porquê?

A mensagem, em si, é tão inocente que é quase inócua. A música uma conhecida balada, tristonha, até algo bonita.

É outra coisa.

Nenhuma estação de rádio ou televisão que se preze hoje em dia, despede-se de ninguém. Neste mundo moderno, online, quer-se tudo e todos acordados 24 horas por dia, as últimas desgraças de todo o mundo retransmitidas imediatamente e ao vivo, as banalidades insuportáveis dos políticos e das celebridades de 14 minutos e meio do Andy Warhol cuidadosamente empacotadas e repetidas ad-nauseum, como que para preencher quotas virtuais de repartição administrativa das influências e do discurso político.

A vida que eu conheci em África tinha uma cadência muito mais clara. O dia seguinte era cortado por uma noite de descanso. E o fim dessa noite era assinalado pelo fecho da emissão da Estação A do Rádio Clube. Para mim, creio que esse ritual, a voz da Manuela Arraiano e a música arrastada, eram o fim do dia, que eu prolongava um nadinha com a rádio sul-africana.

Depois era o silêncio, o escuro, o descanso, até à madrugada do dia seguinte.

E esse momento de pausa, e essa mensagem simples, a essa hora, tinha significado. Era uma reafirmação de uma certa ordem sequencial da vida, da nossa humanidade, do respeito devido a todos aqueles que, por uma razão ou outra, estavam acordados àquela hora.

Claro que eu na altura não sonhava que vivia sobre um vulcão, não sabia nada sobre regimes coloniais, sobre movimentos guerrilheiros, sobre equilíbrios de forças, democracia e muito menos política. Crescera no que já era antes de eu ser, e partia daí. As coisas só podiam mudar e para melhor. Nesse aspecto, a ilusão de Lourenço Marques era quase perfeita para mim, pela dicotomia entre o mato infindável e fascinante, e a modernidade sofisticada da cidade, e a promessa de ambos.

No dia 25 de Abril de 1974 à tarde, tive que perguntar à minha mãe o que era um golpe de Estado. E mesmo quando ela me explicou, e da sua ligação directa com a situação na minha terra, encolhi o ombros e até achei muito bem que Moçambique ficasse independente. Aquilo de só nós os brancos mandarmos em Moçambique só porque a pele era clara parecia um pouco anacrónico. Era o que eu pensava. Mas digamos que, na escala cósmica das minhas preocupações na altura, essa era uma questão que se havia de resolver. Um dia. Ainda em minha vida, mas não dali a uma semana, ou um mês.

Rapidamente, assisti, como quase todos os da pequena tribo branca da África Oriental, a uma tempestade. Muitos “regressaram” a Portugal. Outros, como eu, meramente saíram. Para quase todos, foi um exílio emocional, marcado pelo corte entre essa cadência da natureza o dia a seguir a noite, a noite a seguir ao dia, o trabalho, a escola, o desporto, os amigos. De repente toda a gente que eu conhecia desapareceu, perdeu quase tudo, os empregos, os bens, os amigos e as referências, e eu encontrei-me num país que conhecia mas só de longe, cujas referências, rituais e especificidades me eram no mínimo estranhas, longe da família, praticamente  a viver de uma caridade (solidariedade?) relutante e alheia.

Lutei.

Trinta e tal anos volveram antes que eu tivesse a chance de escutar a novamente mensagem de Manuela Arraiano – uma injustiça à Manuela, que, descobri, era uma mulher muitíssimo mais culta, com obra feita e interessante que o breve solilóquio radiofónico de três minutos e trinta e seis segundos que dura a sua mensagem de boa noite.

Mas é por causa dessa mensagem que no seu nome foi, e é, repetido.

É uma ironia.

Quando escutei novamente a mensagem de despedida do Rádio Clube que ela gravou há tantos anos, recordei-me das noites, nos anos 60 e 70, em que a ouvi. Aquelas noites quentes, escuras, silenciosas de África, o céu ao mesmo tempo tão escuro e tão reluzente com um milhão de estrelas, as folhas das grandes árvores tropicais a oscilarem suavemente por força de um vento suave, invisível, apaziguador.

Era tempo de descansar, de dormir. O dia seguinte será um novo dia, cheio de coisas para fazer.

De coisas boas para fazer.

Foi o que eu senti quando revisitei a curta mensagem de Manuela Arraiano.

E por ser uma memória tão pessoal, tão mágica e tão profunda, pensando bem, talvez tal não seja tão insignificante, nem tão pouco redutor, para nós todos e para a Manuela.

Aquela pequena mensagem, perdida da noite, que Manuela interpretou, afinal, ecoou pelos tempos, e pela memória.

Recordou-me a paz que foi, e era, uma juventude despreocupada, antes da tempestade que se abateu.

Por tudo isso, recordar-me-ei sempre dessa mensagem, e dela.

Boa noite, Manuela Arraiano.

Dorme em paz.

(para ouvir prima AQUI)

17/04/2011

LISBOA NUM SÁBADO DE PRIMAVERA

No topo do Elevador da Glória, junto ao Bairro Alto.

Vista para a Praça da Misericórdia. À esquerda fica a Igreja de São Roque.

Uma pensão na Travessa do Fala-Só. Na encosta que desce do Bairro Alto para os Restauradores.

Rampa do Elevador da Glória, que liga o Bairro Alto aos Restauradores.

A mesma rampa, vista para cima.

A Rua da Glória, que desemboca para a rampa do Elevador da Glória. Almocei ali à esquerda, onde estão os vasos a entupir o passeio...

Quando ia para Cascais pela Avenida da Índia, depois de visitar um alfarrabista, apanhei uma enorme bicha e tirei esta foto enquanto esperava ao sol. Afinal a bicha de carros devia-se a um semáforo que estava avariado e que só ficava verde durante quatro segundos. E o pessoal parava todo "mesmo". Absolutamente patético. Portugal já não é o que era....

05/04/2011

FIZ A MINHA PRIMEIRA COMPRA NA AMAZON

Filed under: Amazon.co.uk, António Botelho de Melo — ABM @ 8:58 pm

Ontem fiz a minha primeira compra na Amazon.

Durante anos comprei uma pequena fortuna em livros, invariavelmente em livrarias que eu visitava, frequentemente em antiquários, alfarrabistas e afins, de vez em quando directamente a um ou outro que o vendiam na internet, mas quase nunca via a tal de Amazon, que está para este negócio como os Estados Unidos estão para o negócio dos armamentos.

Porquê, perguntará o exmo leitor?

Por uma razão muito simples.

É que a Amazon tem a sua maior base de operações nos Estados Unidos.

E aí reside o meu problema.

Eu explico.

Uma vez comprei um livro que queria ler nos Estados Unidos. Já nem me lembro bem o que era. mas era um livro que só havia lá.

A compra em si foi simples.  Telefonei para a livraria da Universidade de Boston (onde logrei obter um mestrado em gestão há uns anitos). Atendeu uma miúda qualquer, simpática e despachada, viu no computador se o livro estava à venda (estava) disse que custava uns vinte dólares. Dei-lhe o número do meu cartão de crédito. Uma semana depois, estava em Portugal.

E aí começou a aventura.

O livro afinal não foi simplesmente entregue pelos correios em minha casa.

Não.

O que eu recebi foi uma notificação dos Correios e Telégrafos de Portugal (CTT) para comparecer pessoalmente e com identificação válida, no Centro Nacional de Distribuição etc e tal, que fica em casa do caraças mais velho, no outro lado de Lisboa, junto da antiga Expo 98.

Para abordar -referia o bilhetinho – o assunto “livro procedente dos EUA”.

No dia seguinte, fui lá. 45 minutos de popó para cada lado, estacionamento, com a pernoca do carro em cima do passeio, corrida para dentro de um armazém que não acaba, pesquisa da secção onde está a minha encomenda, depois pus-me atrás de três pessoas e fiquei à espera, de pé, enquanto uma funcionária mais ou menos indisposta ia o mais latinamente possível despachando o expediente.

Chegou a minha vez e entreguei-lhe o papelinho que recebera na caixa do correio. Ela despareceu durante quatro minutos e meio. Voltou com um volume que supus (correctamente) conter o livro.

“Este livro é para si?”

Fiquei a olhar para ela.

“Sim, para quem é que seria”

“Mas é para si para ler pessoalmente ou faz parte do seu trabalho?”

“Como?”

“É para uso pessoal ou profissional ou académico?”

“Desculpe lá, mas o que é que interessa à senhora para que é que eu vou usar o livro?”

“É que este livro vem dos Estados Unidos, que é um País Terceiro. E quando os livros vêm de um Pais Terceiro, não é como na União Europeia. Pagam-se direitos, e esses direitos, que dependem de se o uso é pessoal, profissional ou académico, têm que ser pagos agora, antes que o senhor o possa levantar. ”

Louvado seja Deus, pensei.

“Bem, eu vou usar o livro para….qual é o mais barato?”

“Uso académico”.

“Então é para uso académico”.

“Trouxe o seu cartão de docente ou investigador consigo?”

“Como?!”

“O comprovativo de que o senhor é professor ou investigador.”

“Ó minha senhora, eu estou aqui há 45 minutos à espera, saí de casa que fica a 6o quilómetros daqui há uma hora e meia, paguei portagens, para vir buscar um livro que demorou cinco minutos ao telefone para encomendar em Boston e agora quer que eu apresente comprovativo de ser docente ou investigador?!”

“O senhor é que disse que era para investigação”.

Sim, mas não disse que era investigador ou docente encartado. Não se pode investigar sem ter uma credencial?!”

“Sim, mas nesse caso em que não tem comprovativo nós consideramos ser uso pessoal”.

“Os direitos para uso pessoal são mais caros que uso académico quando se trata de um País Terceiro. Como é o caso com os Estados Unidos”.

“Mais caro quanto?”

“Pode chegar aos cem por cento. Temos que proteger o negócio das livrarias especializadas, que pagam impostos”.

“Mas que raio de trampa de país é este que se lembra de fazer estas coisas?”

“Não sou eu que faço as regras”.

“Oiça, faça como quiser mas despache-me isso pois eu quero ir-me embora e não ter que voltar aqui”.

“Então vai como uso pessoal”.

De seguida escrevinha uma coisa num papel e diz-me “leve isso ao guichet ao lado, pague os direitos e volte com ele carimbado, para eu lhe dar a encomenda”.

Fui para o guichet ao lado.

Não estava lá ninguém.

Esperei.

Esperei.

Esperei.

Voltei à senhora.

“Desculpe, no guichet ao lado não está ninguém”.

“Espere um bocado que o colega vai aparecer”.

Voltei para lá.

Esperei.

Esperei.

Voltei à senhora.

“Desculpe, não aparece ninguém”.

“Só um minuto”.

Ela foi a uma sala contígua e ouvi-a a falar ao telefone. “Então mas ela está onde? é que está aqui um pagamento de País Terceiro à espera….ah. Sim. Sim. Sim. Está bem. Até já”.

Voltou à sala.

“A colega vem já”.

Dali a cinco minutos apareceu uma senhora no guichet ao lado. Tinha o ar de quem tinha comido sete pregos e bebido duas Superbocks. Sem uma palavra, tirou-me o papel da mão e sentou-se em frente ao que me pareceu ser o computador pessoal mais velho de todo o funcionalismo público português.

Com os dois dedos, começou lentamente a teclar o que parecia ser um formulário.

Muito lentamente.

Finalmente, levantou-se, desapareceu na sala de trás e voltou com um papel impresso.

“São 19 euros e 32 cêntimos sefachavor. Se tivesse trocado, agradecia.”

Saquei uma nota de vinte euros, obviamente já na fase do sentimento de pós- ter sido mais uma vez aldrabado pelo governo, e entreguei-lhe. “Fique com o troco”.

Ela pegou na nota sem dizer uma palavra e desapareceu outra vez.

Três minutos depois, re-aparece. Pegou no papel que preparara, deu-lhe umas valentes carimbadelas em cima e entregou-mo, juntamente com 68 cêntimos em moedas (uma de 50 cêntimos, uma de dez, um de cinco, uma de dois e uma de um cêntimo).

“Apresente este documento no guichet ao lado para fazer o levantamento da sua encomenda”.

E foi-se embora.

Voltei ao guichet inicial.

Entreguei o papel à senhora, que o inspeccionou e lhe deu mais duas valentes carimbadelas.

Desapareceu na sala atrás e voltou com a encomenda contendo o meu livro.

Entregou-mo.

“Obrigado, boa tarde”, consegui rosnar.

“Boa tarde”, escapou-se-lhe de entre os dentes, displicentemente.

E isto foi o que aconteceu.

Logicamente, jurei preferir morrer estúpido que ter que mandar vir mais um livro que fosse para Portugal.

Só que, numa pesquisa que estou a fazer actualmente, achei ser perfeitamente imprescindível adquirir um dado livro, pois o mesmo custava 15 dólares, quando a alternativa era ir lê-lo a uma de duas bibliotecas que o têm em Portugal, o que implica outro pequeno inferno, que é fazer uma consulta de um livro numa biblioteca portuguesa (poupo ao exmo. leitor o horror da descrição de uma tal situação). Fazendo as contas, saía-me mais barato comprar e mandar vir o livro pelo correio que ir a Lisboa lê-lo e mandar fotocopiar o capítulo em causa.

Só que o livro mais barato que encontrei foi na Amazon nos Estados Unidos.

Depois de uma hora no computador (na verdade o processo é fácil) descobri que o podia encomendar via a Amazon no Reino Unido – a tal Amazon,co.uk que aparece lá em cima.

Ora o Reino Unido fica na União Europeia e logo, fazendo ali a compra, pensei, evitava ter que ir aturar as senhoras dos dois guichets da Central de Distribuição dos CTT junto à Expo 98 em Lisboa.

E foi o que fiz. Tic tic tic no teclado, cinco minutos e o livro ficou encomendado e pago.

Só que logo hoje de manhãzinha (menos de 12 horas depois de ter encomendado o livro) recebi uma mensagem electrónica que me deixou mal disposto.

Num tom gritantemente entusiasmado (sabem como é que são os americanos) a mensagem dizia qualquer coisa como “Hello Antonio! recebemos a tua encomenda e já expedimos o livro! Thank you!”

“Livro, que já foi enviado directamente para ti via a DHL a partir de Chicago”.

Ora, Chicago fica nos Estados Unidos.

Estados Unidos é País Terceiro.

País Terceiro paga direitos.

Ou seja: lá vou ter que ir a Lisboa aturar as senhoras no guichet dos CTT e ser roubado pelo governo.

Se assim for, esta será a minha única primeira e única compra na Amazon.

23/03/2011

FELIZ ANIVERSÁRIO SR BOTELHO DE MELO

Filed under: Manuel Botelho de Melo — ABM @ 10:37 pm

Assinalando o aniversário do meu pai, que nasceu num dia 23 de Março, com uma das suas – e se calhar a minha – baladas favoritas pelo nosso (e do Manuel Petrakakis) favorito intérprete, Frank Sinatra. Esta sendo uma de duas canções em que sei cantar a letra de cor, tirando o hino nacional português.

Feliz aniversário Sr. Melo. Já não nos vemos há dez anos mas para mim é como se tivéssemos falado ontem.

Manuel Botelho de Melo em Macau, anos 50, antes de ir viver para Moçambique.

17/03/2011

HAPPY BIRTHDAY MUMMY

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 4:34 pm

Comemorando o aniversário da minha mãe, que aconteceu há uma semana e meia, com um vídeo de Justin Wu, em baixo.

Tina, 1948

14/02/2011

ENSAIO DE UMA CRÓNICA SOBRE O SAUDOSISMO

Filed under: António Botelho de Melo, Catita Brothers, Deep Purple, Música — ABM @ 1:55 am

"WE'LL ALWAYS HAVE LOURENÇO MARQUES"

por ABM

Tenho-me divertido nos últimos dois meses. O meu amigo Gil já está farto porque, diz-me,  já foi e já veio dessa. Eu nem sabia que existia.

Tinha um amigo que só de ouvir uma uma frase alusiva ao tópico quase que vomitava, intelectualmente. Ah como o compreendia. Ele, coitado, não tem como saber. E no fundo não quer saber, nem compreender. Pois perturba. E irrita como o caraças.

E como eu o compreendia. A saudade, desta forma, com este rótulo, nesta interessante, legislada língua, à partida, envenena antes que se possa caracterizar, ou falar dela.

Mas como me tenho divertido.

É como estar noutro mundo, dentro de outro mundo, dentro de um outro mundo.

Um dia hei-de falar sobre isso.

Mas ainda é cedo. Demasiado.

Tenho que me divertir primeiro.

Com o tal de saudosismo.

O dos outros.

E o meu.

04/02/2011

ISTO E AQUILO

Para além de alguém baptizar um obscuro canto do seu império com o nome dela - já então uma homenagem barata - Amélia esteve em África. Ei-la aqui posando em cima de um camelo no Egipto, em frente a uma das pirâmides em Gizé, 1903. Cento e oito anos e 19 milhões e meio de pessoas mais tarde, aquilo está nalguma confusão.

5 de Fevereiro de 2011

O Egipto e a Tunísia

Quando houve aquelas chatices todas em Maputo em Setembro de 2010, não sei se se recordam que a grande guerra a seguir foi…..obrigar os 4 milhões de utilizadores de telefones móveis a registarem o nomezinho, a morada e o número de BI com a émecel e com a vodacão. Agora, parece que o catalisador da revolução na Tunísia e neste momento no Egipto (hum, será que com o tal de acordo ortográfico passou a ser Egito?) foram….as mensagens de SMS, os emails, o Facebook e o Twitter. Na Tunísia, o regime ainda não foi a tempo de cortar a internet e as comunicações. No Egipto, eles cortaram mas o Presidente Obama, cujo governo é que dá uns milhares de milhões de dinheiro de “cooperação”, mandou um bafo ao governo egípcio para não cortarem as comunicações do povo.

Em ambos os casos, foi uma complicação cortar a recepção de estações de televisão internacionais por satélite, especialmente a estação Al-Jazeera, que hoje só tinha um tópico na agenda: o que se passvaa dentro do Egipto. E antes, na Tunísia.

As implicações em termos da dinâmica da política e a relação entre governantes e governados, especialmente em sociedades onde a paz é mais ou menos podre, são deveras profundas.

E muito encorajadoras e muito perturbadoras, ao mesmo tempo.

Mais importante: agora os lusofalantes que sehuem os ditames decretados pelo governo dizem “Egito” ? eles agora são os … egícios?

As Rendas

Segundo o Expresso desta semana, em 2010 o número de rendas por pagar passou de 20 para 30 mil e, citando a Associação Nacional dos Proprietários, o montante em dívida passou para 72 milhões de euros – o dobro comparado com 2009. Como a lei portuguesa neste campo tende a ser punitiva para os proprietários, e a justiça punitivamente morosa e cara, prevê-se um pequeno tsunami nesta área em 2011. E como, na cultura portuguesa, entende-se geralmente que proprietário = rico e inquilino = coitadinho, pior vai ser.

A Escrita

A página de há uns dias do Diário de Notícias continha a seguinte, triste notícia:

“O jornalista da TVI José Pedro Barreto, actualmente a desempenhar as funções de editor do Internacional, morreu ontem à noite vitima de um acidente vascular cerebral (AVC), após uma operação. O jornalista, que tinha 62 anos, é descrito pelos colegas como um dos profissionais mais competentes do canal.”

Uma grande perda, pois o Pedro fez um trabalho excelente.

Mas, se ele morreu um dia antes da publicação deste texto, é impossível ele desempenhar as funções “actualmente”.

Mas foi o que saiu.

A Lei

A minha amiga Graça Rodrigues alertou-me para a necessidade – um dever de cidadadnia – de conhecer as leis que os legisladores portugueses vão emanando. Nomeadamente o Decreto-Lei 35/2010 de 15 de Abril (de 2010), que começa assim:

“Os artigos 143.º e 144.º do Código do Processo Civil aprovado pelo Decreto -Lei n.º 44 129, de 28 de Dezembro de 1961, alterado pelo Decreto -Lei n.º 47 690, de 11 de Maio de 1967, pela Lei n.º 2140, de 14 de Março de 1969, pelo Decreto -Lei n.º 323/70, de 11 de Julho, pela Portaria n.º 439/74, de 10 de Julho, pelos Decretos -Leis n.os 261/75, de 27 de Maio, 165/76, de 1 de Março, 201/76, de 19 de Março, 366/76, de 15 de Maio, 605/76, de 24 de Julho, 738/76, de 16 de Outubro, 368/77, de 3 de Setembro, e 533/77, de 30 de Dezembro, pela Lei n.º 21/78, de 3 de Maio, pelos Decretos -Leis n.os 513 -X/79, de 27 de Dezembro, 207/80, de 1 de Julho, 457/80, de 10 de Outubro, 224/82, de 8 de Junho, e 400/82, de 23 de Setembro, pela Lei n.º 3/83, de 26 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 128/83, de 12 de Março, 242/85, de 9 de Julho, 381 -A/85, de 28 de Setembro e 177/86, de 2 de Julho, pela Lei n.º 31/86, de 29 de Agosto, pelos Decretos -Leis n.os 92/88, de 17 de Março, 321 -B/90, de 15 de Outubro, 211/91, de 14 de Junho, 132/93, de 23 de Abril, 227/94, de 8 de Setembro, 39/95, de 15 de Fevereiro, 329 -A/95, de 12 de Dezembro, pela Lei n.º 6/96, de 29 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 180/96, de 25 de Setembro, 125/98, de 12 de Maio, 269/98, de 1 de Setembro, e 315/98, de 20 de Outubro, pela Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro, pelos Decretos -Leis n.os 375 -A/99, de 20 de Setembro, e 183/2000, de 10 de Agosto, pela Lei n.º 30 -D/2000, de 20 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 272/2001, de 13 de Outubro, e 323/2001, de 17 de Dezembro, pela Lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro, e pelos Decretos-Leis n.os 38/2003, de 8 de Março, 199/2003, de 10 de Setembro, 324/2003, de 27 de Dezembro, e 53/2004, de 18 de Março, pela Leis n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, pelo Decreto -Lei n.º 76 -A/2006, de 29 de Março, pelas Leis n.º 14/2006, de 26 de Abril e 53 -A/2006, de 29 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 8/2007, de 17 de Janeiro, 303/2007, de 24 de Agosto, 34/2008, de 26 de Fevereiro, 116/2008, de 4 de Julho, pelas Leis n.os 52/2008, de 28 de Agosto, e 61/2008, de 31 de Outubro, pelo Decreto -Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, e pela Lei n.º 29/2009, de 29 de Junho, passam a ter a seguinte redacção: ……………………”

Tirem-me daqui.

Reprise: A Bomba

Como não podia dizer melhor, cito o artigo de um economista da praça que sabe o que diz:

“O ponto de interrogação que paira sobre a dívida da República Portuguesa explica-se com uma mão-cheia de dados estatísticos: no 1.º trimestre, vencem 10 700 milhões de euros de dívida a curto prazo (Bilhetes do Tesouro, BT); em Abril, há quase 5 mil milhões a vencer a mais longo prazo (Obrigações do Tesouro – OT) mais uns 720 milhões em juros; em Junho, a conta calada atinge o seu pico: cerca de 5 mil milhões de OT mais 2 mil milhões de BT a vencerem nesse mês. No 2.º semestre de 2011, os compromissos caem para menos de metade dos da primeira metade do ano. (E, nos próximos quatro anos, as projecções de compromissos da dívida pública de Portugal ficam muito abaixo do ano de 2011). Logo: a nossa aflição financeira concentra-se no curtíssimo prazo, nos próximos 5 meses!

E é aqui que entra em cena o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Uma simples conta leva a concluir que, até ao fim da sua existência, em meados de 2013, o FEEF precisa de se reforçar em dimensão e em maleabilidade de intervenção, se quiser cumprir cabalmente o papel de dissuasor de ataques especulativos contra o euro através dos seus membros da periferia.

A melhor arma de dissuasão é aquela que, por ser tão esmagadora, acaba por nunca ter de ser usada. Para os credores se acalmarem quanto às parcelas mais expostas das dívidas soberanas tituladas em euros, é preciso que o FEEF ganhe o estatuto inquestionável de notação ‘AAA’. Mas isso implica, se toda a Zona Euro se quiser dotar de um mecanismo de apoio capaz de acudir a Portugal e à Espanha (se necessário), que o FEEF+contributo da UE27+FMI se dote de 540 mil milhões de euros disponíveis, quando dispõe actualmente de apenas 410 mil milhões. E, se quiser sinalizar que até a Bélgica e a Itália cabem sob este enorme guarda- -chuva financeiro, aí é preciso juntar mais um milhão de milhões, pelo sim pelo não.

Assim, quando Sarkozy e Merkel rasgam as vestes em público pelo seu querido euro, jurando que nunca o deixarão cair em desgraça, em resposta de Lisboa só devia sair o seguinte pedido: dêem o vosso acordo ao reforço financeiro do FEEF já na cimeira da próxima semana!”

19/01/2011

A MINHA DECLARAÇÃO DE VOTO NAS PRESIDENCIAIS PORTUGUESAS EM 2011

Após assistir à campanha eleitoral e de ouvir atentamente a discussão, pelos candidatos, das prioridades nacionais, cumprindo o dever cívico de optar pela minha escolha para presidente do Portugal actual, em baixo reproduzo o meu boletim de voto.

E deixo à imaginação do exmo. Leitor de qual será a minha escolha.

 

 

18/01/2011

O INÍCIO DE 2011 EM DEZ ACTOS

O ano de 2011 começou bem – ou não?

Or veja-se a minha curta resenha:

1. Depois de uma série de distúrbios na Tunísia, o presidente do regime que o mantém há 23 anos, fugiu. Falta ver o que é que o regime vai fazer a seguir. Diz que vai fazer uma eleição. Mas depois de uma ditadura de 23 anos, o que é que se pode eleger? À primeira vista assunto pouco relevante, mas levanta questões quanto a outros países onde situações com algumas semelhanças existem.

2. O Sudão ensaia uma partição na linha Norte-Sul. Com o petróleo, no meio, por resolver. Hum, tirando a Eritreia, quando foi a última vez que uma nação-estado ao estilo pós-colonial africano fez isto, e viveu para contar a história?

3. Parece não haver maneira de a Costa do Marfim ir ao lugar. O habitual problema: ou se aldraba, ou simplesmente não se liga às leis e aos compromissos eleitorais. No fim, o poder fica na rua, ou com obscuros militares, talvez o menos desejável dos resultados. E uma lembrança da fragilidade dos sistemas e das instituições. E da atitude.

4. Enquanto isso, Jeffrey Sachs, académico e bardo-mor de uma certa forma de desenvolvimentismo chique de Manhattan, que parece que só ele parece saber o que é, elogiou a taxa de crescimento do PIB moçambicano e preconizou em Maputo esta semana finda coisas fantásticas para vir, juntamente com algumas verdades de La Palisse, como aquela de se ter que renegociar alguns contratos milionários para algumas multinacionais e de se ter que ter mais cuidado com as concessões de terrenos agrícolas. É sempre bom ver a realidade de Moçambique quando se vê através de uns relatórios em Nova Iorque.

5. Já Prakash Ratilal, agora tornado banqueiro mercurial e mais próximo do terreno, não é tão optimista quanto aos próximos tempos. Ele lá sabe, e tentou explicar porquê. Bombásticamente, o jornal lisboeta Público de hoje cita umas linhas do que ele disse e cobriu tudo com o relativamente bombástico título ” o modelo económico moçambicano não é sustentável”. Bem, é e vai ser enquanto metade das despesas públicas do Estado moçambicano continuarem a ser generosamente pagas pelos infames estrangeiros, juntamente com um cocktail de “soft loans” e pacotes de ajuda e ainda doses industriais de investimentos extratcivos e de infra-estruturas. Os pobres assim não morrem, os ricos ficam mais ricos e os doadores dormem melhor. É assim há quase trinta anos. É a situação win-win-win. À moçambicana.

6. Esta semana foi revelado que, para além da actual autêntica rapina das florestas moçambicanas, realizada neste caso por –surpresa! – a empresa chinesa Tienhe Ldª, parceira da igualmente chinesa Miti, Ldª, os moçambicanos, ao apreenderem uma remessa ilegal de nada menos que 161 contentores de madeira em bruto (leia-se: cento e sessenta e um contentores) após uma inspecção (por denúncia) de um navio atracado em Pemba, encontraram lá dentro de um deles (e aqui cito a sempre inquestionável AIM) “126 dentes de marfim, uma ponta de rinoceronte, animal em extinção no país, carapuças [sic] de pangolins, peças de arte fabricadas com base em marfim e excremento de elefantes”. Portanto no mínimo mataram uma manada de elefantes, um rinoceronte e tiraram os carapuços aos pangolins. A contínua matança dos animais de Moçambique para decorar as casas dos chineses e o genocídio florestal em curso em Moçambique há muito que deixaram de me surpreender. No fundo é como aquela  história dos fumos corrosivos da Mozal que só corroem os centros de tratamento, mas não os pulmões dos Maputianos. A história do excremento de elefante é que é uma novidade para mim. Contrabandear excremento de elefante para a China? para quê?

7. Na frente espiritual, o Vaticano lá encontrou e validou um “milagre” que justificasse a beatificação do genial João Paulo II, a ser formalizada a 1 de Maio, dia que nos países outrora conhecidos por comunistas celebram os trabalhadores (para variar os americanos celebram o trabalho, no início de Setembro). Agora procura-se mais um milagre para a santificação. Eu acho que, por uma questão de desburocratização administrativa do processo, devia-se reverter para o sistema moçambicano de decretar heróis, ou o velho processo dos romanos, em que o imperador tinha o direito de proclamar fulano ou cicrano deus. Assim arrumava-se o assunto de uma vez com um papel.

8. Em Portugal, a campanha presidencial assume foros de patético. Em parte porque ninguém percebe bem o que é que um presidente pode fazer para lidar com o crescente clima de recessão. Todos suspeitam que não pode fazer nada a não ser possivelmente piorar as coisas. Felizmente o suplício acaba no próximo fim de semana, após o que a crise poderá continuar. Para já, todos os impostos dispararam mas só daqui a uns seis meses é que se vai começar a sentir o embate. Mas as apostas para a queda de Sócrates são mais curtas.

9. Regressados os restos mortais do saudoso Malangatana a Moçambique, ele foi sepultado na sua terra natal com a pompa e o respeito devidos. Já em Portugal, onde ele morreu, foi tratado com o mesmo respeito. Em Maputo, até o Eduardo White se deu ao trabalho de preparar algo para ser lido na cerimónia do enterro, com alguma ajuda da Lucrécia Paco. Assim, até apetece morrer.

10. Roberto Chichorro inaugura uma exposição da sua arte no próximo dia 21 numa galeria de arte em Cascais. Pelas 21:30 horas.

Olhando bem lá para cima, já me começa a parecer que 2010 foi há uma vida.

16/12/2010

PREENCHER A NOVA MOLDURA

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 8:01 pm

16 de Dezembro de 2010

Aqui nesta casa, com alguma mobília nova. As ideias e a visão, inalteradas.

15/12/2010

MANEIRAS DE ESTAR NA VIDA

Filed under: António Botelho de Melo, Sociedade portuguesa — ABM @ 3:30 am

por ABM (15 de Dezembro de 2010)

Isto dava para um estudo em sociologia em como alguns vêem o mundo:

O tapete de entrada do meu apartamento em Cascais:

O tapete de entrada do apartamento de um vizinho:

Já uma vez falei com o vizinho e disse que aquilo estava mal colocado e levei um discurso em como é mesmo assim.

Portanto fui eu que não percebi.

ROSTROPOVICH, BACH E STRADIVARIUS

Filed under: António Botelho de Melo, Música, Mstislav Rostropovich — ABM @ 3:00 am

por ABM (14 de Dezembro de 2010)

Nos anos 80, estava eu então em residência na pequena cidade de Providence, capital do Estado de Rhode Island, quando, tentando basciamente encantar a filha de um professor de Estudos Orientais de uma universidade local, convidei-a para ir à majestosa e então recentemente restaurada casa de ópera da cidade, que ficava na baixa da cidade.

Apreciador de música clássica e já a trabalhar, comprei se calhar os dois melhores bilhetes da casa para mim e para a menina, na primeira fila, para ouvir e ver a actuação de um clássico russo (bem, na acepção de “russo” daquela época) que tinha acabado de fugir da União Soviética por ser considerado um dissidente e aquelas coisas todas que lhes chamavam na altura.

O nome dele era Mstislav Rostropovich e tocava violoncelo.

Vem a noite do espectáculo (nos EUA vai-se a estas coisas entre as 6 e as 7 da noite, o que em Portugal decididamente não acontece) e lá aprecemos os dois todos arrepimpados, eu de fato e lacinho e a menina de vestido longo e xaile da moda. No palco, à hora marcada, entrou o que me pareceu um velhinho simpático, a carregar o violoncelo. Sentou-se mesmo, mesmo à minha frente. E, na hora e tal que se seguiu, proporcionou-me um dos grandes espectáculos da minha vida.

Não era só a beleza, a qualidade, da música que ele interpretou que me chocaram. Principalmente, foram duas coisas: a enorme energia que saía daquele homem, mas também as coisas que ele conseguia fazer com aquele instrumento. Conseguia oscilar do mais estrondoso trovão, para a mais suave melodia, ténue como uma brisa. Mas que maravilha.

Desde então ouvi-o muitas vezes a tocar, em discos, depois CD’s, e na internet. Outro dia uma amiga mandou-me a ligação em cima. Que me embalou enquanto escrevia esta nota. E me lembrava daquela noite.

Uma nota final: nos conhecimentos artilhados na internet, parece que os lusofónicos andam um pouco a reboque dos anglofónicos. Felizmente que falo ambas as línguas, senão estava lixado.

O PORTUGAL DE UMBHALANE SENA

por ABM (14 de Dezembro de 2010)

Há uns tempos atrás, comprei num antiquário a imagem acima, que era para oferecer a um senhor que eu conheço, de origem indiana, chamado Fahrid.

Entretanto, a vida deu sete voltas e a velha imagem ficou dentro de um envelope, de onde a tirei outro dia, não sabendo já o que lá estava.

É uma imagem da cidade portuguesa de Diu, quando era portuguesa. Uma das cidades fortificadas que os antigos portugueses tinham por aí, para assegurar os seus negócios, a sua segurança e também para fazer valor aos reis portugueses o título adicional de “senhor do comércio e da navegação”.

A coisa de facto durou pouco. Os portugueses foram senhores da navegação e comércio por umas décadas no século XVI, e depois iniciou-se uma longa agonia, que durou quase uns quatrocentos anos, que incluiu a entrega de Bombaím (hoje Mumbai) e o Ceilão (hoje o Sri Lanka) como parte do dote pago a Carlos II para desposar a miserável Catarina de Bragança e assim oferecer vaga cobertura à então recentemente re-adquirida independência do reino de Portugal.

A Índia foi “britânica” durante uns anos, e os portugueses mantiveram-se nos seus pequenos enclaves de Diu, Damão, Goa, e dois territórios no interior chamados Dadrá e Nagar-Aveli.

Até que, de duas penadas, Nehru acabou com a fantasia.

Diu hoje aparentemente é pouco mais que um obscuro apêndice no colosso indiano, encostado lá em cima ao pé de um dos mais fecundos centros de negócios da Índia.

Um dos leitores deste blogue colecciona imagens de lugares e fortificações onde os portugueses antigos estiveram. Em Moçambique, tirando aquela ilha lá para cima, a maioria destas fortificações durou pouco ou nada, por esta ou aquela razão. E nem cidade alguma se formou em seu redor.

O que foi, para essa gente, viver ali, tão longe da sua terra?

Ou não era assim que pensavam?

Mal imagino que terá sido.

Ma por outro lado, se calhar dirão os mesmos de quem viveu em África até ao terceiro quartel do século XX.

14/12/2010

A MORTE REVISITADA

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 3:30 am

por ABM (13 de Dezembro de 2010)

A morte visita-nos mais frequentemente em Maputo. É algo a que nunca me habituei, nem creio, alguma vez me habituarei. Pessoas com quem privei, de quem gosto, ou gostava, e que, unicamente com base no critério algo arbitrário da idade, da minha e da deles, e que pensaria que estariam comigo muitos mais anos, a apreciar a vida, o mundo, os amigos e a família, partem, assim de repente, sem mais nem menos.

Nos quase dez anos em que tive o privilégio de viver entre moçambicanos e em Moçambique independente, fui a vários funerais. Lembro-me com enorme saudade da minha querida Martinha Thavede, uma senhora com uma inteligência refinada e com um refrescante sentido de humor, e que de repente, sem aviso, morreu. Ela devia ter 47 anos de idade apenas. Ficou a saudade e ter que ver o sofrimento dos seus filhos, órfãos da mãe tão cedo.

E não compreender.

O mesmo senti no funeral do Sr. Passarinho Fumo, um colega morto em circunstâncias pouco esclarecidas. Um homem de armas, uma força da vida, conhecido na cidade, partiu demasiado, demasiadamente, cedo. No dia do seu funeral, fui incumbido de ler o elogio fúnebre do banco onde ele fora um destacado membro, o BCM. Toda a cerimónia foi conduzida em changana, menos o curto texto que eu li alto em português, ao pé da sua sepultura, precariamente pendurado em cima de um monte de areia deixado pelos coveiros, em frente a uma multidão de amigos e conhecidos. A família depois veio agradecer-me as palavras que eu tinha encontrado na altura, as suas jovens filhas, Dulce e Dinamene, então com 17 e 21 anos de idade, apenas.

A morte visita mais cedo também porque muitos moçambicanos viveram (muitos vivem) uma vida infernal durante anos e anos, e os dispositivos médicos são, ou parecem ser, mais precários ou menos acessíveis em Maputo, para não falar no resto de Moçambique. Por mais que uma vez tive que me meter no carro e ir a Nelspruit, ou a Joanesburgo, discutir com os médicos e os caixas sul-africanos, assistir a esta ou aquela pessoa, que não falava inglês, na ala de cuidados intensivos do hospital em Milpark, o dinheiro e a sobrevivência de alguém atirados na mesma frase, ali, para ser decidido na hora: sim ou não. Nalguns casos com algum sucesso, noutros nem por isso.

Tirando o funeral do meu saudoso Sr. José Craveirinha, que faleceu sempre cedo mas com uma longa e aventurosa vida, e que foi assunto de Estado – o governo do dia declarou-o poeta-herói, não menos – e em que eu fiquei invisível, escondido num canto no meio da enorme multidão lá no Conselho Municipal de Maputo, sempre achei que, em quase todos os restantes funerais em que participei, os falecidos eram demasiadamente jovens.

Partiram demasiadamente cedo.

Parecia-me estranho, uma injustiça. Como é que um povo que me parece saber gozar tanto e tão bem a vida, com tal alegria, apesar de todos os sofrimentos, pobreza, revezes, tem que enfrentar a tristeza de ver os seus partirem tão cedo?

Mas, recordam-me as estatísticas abstractas, em Moçambique morre-se mais, e mais cedo que na Europa e na América. Muito mais. É uma tragédia e uma enorme tristeza.

E ainda há o Sida, a malária.

Num funeral em Maputo sofre-se mais, mas partilha-se mais o sofrimento. Sinto uma maior empatia. Talvez por causa da cultura, mas também por causa da idade de quem morre. E do choque de se perder, regra geral, alguém ainda na flor da vida. Em Portugal e nos Estados Unidos este ritual tende a ser completamente diferente, regra geral. São pessoas velhas, ou muito velhas, que morrem. Viveram longas vidas, já quase não têm amigos vivos, só a família mais próxima e alguns amigos do antigamente. É, de certa forma, o fim de uma presença e de uma era.

Penoso, mas há uma lógica natural.

Não há lógica possível em se morrer jovem demais. Parece uma total arbitrariedade e uma total injustiça.

Em Moçambique vai-se, ou tenta-se ir, aos funerais. Ir, e estar presente, é importante. Não é assim em toda a parte. Eu lembro-me de, no fim dos anos 90, tendo chegado há pouco tempo à cidade, ter colegas portugueses que se questionavam se “aqueles funerais todos” a que os empregados iam, eram verdade mesmo, ou se era apenas uma forma de tirar um dia do emprego. Eu explicava que era assim mesmo. Moçambique é assim. Vai-se aos funerais. Todos vão aos funerais.

E partilha-se a dor.

E se há dinheiro coloca-se uma notinha curta no Notícias, a expressar publicamente a solidariedade.

Este fim de semana que passou, morreu em Maputo uma senhora que com quem trabalhei, que respeitava e de quem gostava. Não era uma figura pública, provavelmente poucos a conhecerão. Acho que a Zaida Ismael, apesar de alguns problemas de saúde, morreu cedo demais. Creio que era muçulmana e se calhar o seu funeral já se realizou. Estou triste e tenho pena de não estar no seu funeral e de poder partilhar a dor que sinto com os seus colegas, os seus amigos e a sua família.

A morte, quando nos visita de perto, deixa-nos mais sós, para sempre.

A sós, com as nossas memórias.

Neste caso, a memória de Zaida.

25/11/2010

HAPPY THANKSGIVING

Filed under: António Botelho de Melo, Happy Thanksgiving — ABM @ 11:26 pm

por ABM (25 de Novembro de 2010)

Alguns exmos. Leitores não saberão que, de entre as algumas proezas de percurso na vida deste escriba, se incluem conseguir não ser um cidadão de Moçambique, mas ser um cidadão dos Estados Unidos da América.

E como bom norte-americano (afro–luso-americano?) aqui desejo aos meus concidadãos do outro lado do mar um Happy Thanksgiving, talvez o meu feriado favorito.

17/11/2010

ONTEM FUI A LISBOA ALMOÇAR CARIL

Filed under: Almoço em Lisboa, António Botelho de Melo — ABM @ 3:51 am

Estava um esplêndido dia de sol e até ameno nos Restauradores. Pouco trânsito, quase ninguém. Parecia um domingo.

O sol outonal realçava a fachada do velho cinema Condes, agora um desses restaurantes chiquérrimos. Mas eu fui comer ao Maharaja, na Rua do Cardal em São José (entrar na Rua das Pretas, virar 1ª à esquerda, 1ª à direita, 1ª à esquerda, 5ª porta à esquerda). Comida indiana de Moçambique e hospitalidade moçambicana. A comida era tão boa que até chateia.

A fachada dos prédios do lado sul da Praça dos Restauradores. Por baixo do último prédio ficam os CTT.

Na ilhota onde fica aquele monumento para provocar os turistas espanholes, estava um cretino a assobiar furiosamente um apito, em frente a isto. A cimeira da NATO é este fim de semana e metade de Lisboa está em pé de guerra. Infalivelmente declarada mais uma tolerância de ponto, a outra metade vai ter um fim de semana longo à custa do patrão. Ah, realmente ninguém sabe combater as crises melhor que os portugueses.

A caminho do restaurante, logo a seguir ao Condes, dou com isto. Ainda tentei ir lá negociar um voto por um porta-chaves. Mas - enfim - descobri que pelos vistos há quem acredite em Portugal e não acredite em dar porta-chaves.

A Rua do Cardal em S. José, onde fica o pequeno Restaurante Maharaja, que fica à direita, atrás de mim. O dono, o Sr Xandrá, é de Maputo - Lourenço Marques, para os fregueses tornados e retornados. Sentia-se o cheiro a caril e piri-piri a dez metros da porta de entrada. A suprema surpresa: ele conhecia o meu pai BM, que, descobri, comeu lá várias vezes, e até tinha uma fotografia dele.

13/11/2010

O FACEBOOK E OS VÁRIOS MOÇAMBIQUES

por ABM (13 de Novembro de 2010)

A minha amiga Patrícia do Facebook mandou este vídeo do sinopse de uma vida no Facebook. Se o exmo. Leitor ainda não está lá, bem, enfim….ali é diferente.

Eu ainda mal sei mexer na minha conta, aberta por causa desta Casa há uns meses (havia um acesso facilitado ao Maschamba via o tal de Facebook). Durante a maior parte desse tempo, eu tinha vinte “amigos”. Portanto quando o JPT me contactou um dia e me propôs apresentarmos os respectivos um ao outro, eu pensava que eu lhe apresentaria os meus vinte amigos e ele me apresentaria os seus vinte amigos.  Para tal, lá consegui preencher meia dúzia de banalidades sobre mim (quando nasci, onde estudei, coisas desse género) e colocar uma fotografia mais ou menos tal e coisa aqui do rapaz para a rapaziada ver.

O que eu não sabia é que o JPT tinha 3.402 amigos. Assim, durante duas semanas, o meu computador de linha branca com nove anos e dois upgrades esteve perto de pifar umas dez vezes.

Tem sido interessante adaptar-me a este novo mundo dos conhecimentos alargados. O nível do diálogo tem sido supreendentemente sério e culto, sem grande peixarada, atravessando as barreiras culturais, geográficas e temporais. E de facto sinto que tenho algum vislumbre de com que dialogo – e vice versa.

Obviamente que a socio-biologia de quem está no Facebook é relativamente específica. Para além de ser tendencialmente monolingual – 99.9% de com quem me relaciono escreve em língua portuguesa – afinal só lá está quem tiver requisitos específicos: um computador, ligação à internet, literacia informática suficiente para navegar nos meandros da internet e dinheiro para sustentar isto tudo.

Apesar desses elementos limitativos, a relativa minoria moçambicana presente na internet é vibrante e genuína. Pode-se, portanto, assim dizer que, para quem quiser, hoje há um bocado de Moçambique em toda a parte.

Aliás, mais do que um Moçambique. Frequentemente, assisto a um curioso convívio do Moçambique actual com o Moçambique que foi. Muitos dos que viveram naquele país até à Independência, e que depois saíram digamos que abruptamente e em alta velocidade e sem olhar para trás, e que na esmagadora maioria dos casos perderam o rasto dos amigos e conhecidos, de repente estão a reatar essas convivências, mesmo que residualmente. A maior parte claramente parece que está noutra onda completamente diferente, mas sinto que vibra com as recordações da sua juventude africana e partilha o que à primeira vista parece ser a mesmíssima sub-cultura que os diferenciou, no caso de Portugal, enquanto “retornados” – não o sê-lo, mas está-lo. Ou melhor, a sua maneira de estar.

Mais curioso é o conjunto (mais pequeno) dos que viveram em Moçambique depois da Independência e que expressam o mesmíssimo apreço pelas suas recordações, mas neste caso no contexto dos tempos revolucionários e do braço no ar.

Mas há lá de tudo, incluindo este blogue, claro. Até o meu amigo, o Sr. António Rita Ferreira, que estudou Moçambique uma vida inteira, e que amanhã completa 88 anos de idade, passou a ter a semana passada (mea culpa) a sua página pessoal no Facebook (sob o seu pseudónimo literário, António Rita-Ferreira).

Se o exmo Leitor ainda não experimentou o Facebook, vá lá ver. É grátis e não engorda. E pode ser que nos encontremos lá.

30/10/2010

A COLECÇÃO ALBERTINO SILVA E MOÇAMBIQUE

A praia da Polana e o Pavilhão de Chá. Na Maputo de hoje, este local fica situado imediatamente antes da subida da marginal para a Polana, a seguir ao Clube Naval.

por ABM (Sábado, 30 de Outubro de 2010)

Quem como eu gosta de ver e estuda o espólio fotográfico de Maputo na internet, nos alfarrabistas e junto dos vendedores de postais, invariavelmente encontra a fabulosa colecção, carinhosamente coleccionada ao longo dos anos, pelo Sr. Albertino Silva, com quem tive a oportunidade de trocar alguma correspondência a semana passada, mais para lhe expressar a minha admiração pela sua colecção e pelo seu esforço.

Albertino Silva nasceu na cidade Beira em 1965, viveu em Vila Machado (actual Nhamatanda) até aos cinco anos de idade e até aos onze anos em Vila Pery (actual Chimoio). Veio viver para Portugal em 1976. Hoje é casado, pai de dois filhos e é Gerente Bancário no melhor banco de Portugal – a CGD.

Albertino Silva radicou-se numa pequena localidade algures no Norte, chamada Lobão da Beira, no Concelho de Tondela, que tive que andar às voltas no mapa para saber onde ficava. Ele acarinha essa terra sua adoptiva, mas creio que não tem comparação aparente com o seu carinho para com Moçambique, a julgar pelo espólio fotográfico.

Parte da generosidade de Albertino Silva é ter disponibilizado essa colecção na internet para quem quiser ver e que pode ser visualizada AQUI. Ela está alojada no Flickr.

O Sr. Albertino Silva num giro por Maputo.

O conjunto de imagens está devidamente organizado e facilmente consultável. Ao contrário de mim, que coloco as minhas imagens com boa qualidade para que qualquer pessoa as possa descarregar e guardar em casa (um exemplo é a imagem acima, digitalizada de um postal da minha colecção particular – descarregue à vontade e mande aos seus amigos todos) as do seu Albertino Silva não podem ser descarregadas. Mas não faz mal porque estão lá e podem ser vistas a qualquer altura.

As imagens têm a virtude de não mentirem a maior parte das vezes e de permitirem ver-se aquilo que se gostava de ver por uma razão ou outra mas não se estava lá. E a Colecção Albertino Silva faz isso como poucas.

E não é só. Deixo ainda os endereços de sítios adicionais do Sr. Silva:

Lobão/Moçambique Web-Vídeos
Galeria de Albertino Silva no flickr
Lobão da Beira Web Moçambique-Portugal
Lobão da Beira Web Moçambique-Portugal 2
Lobão da Beira no Facebook
Lobão da Beira Web
Albertino Silva no sevenload
Albertino Silva no photobucket
Bom fim de semana.

27/10/2010

O INSPECTOR MONTEIRO DOS SANTOS DA PIC

A realidade é mais inverosímil que a ficção: O Inspector Monteiro dos Santos da PIC moçambicana em 1975 era Zéca Russo

por ABM (27 de Outubro de 2010)

Há umas semanas, a propósito da queda da monarquia portuguesa e da inauguração do edifício da Câmara Municipal da então cidade de Lourenço Marques (e que fica mesmo em frente ao Desportivo na baixa de Maputo) mencionei nesta Casa que estive lá à frente aquando do julgamento dum tal Zeca Russo.

Confesso que rigorosamente nada mais sabia sobre o homem, que pensava ser um ladrão comum mas com eventualmente alguma laracha.

Mas o meu caro Carlos Gil chamou-me a atenção para um texto de 2007, feito pelo Dr. Carlos Manuel Adrião Rodrigues.

O Dr. Carlos Rodrigues descreve-se, num blogue que alimenta, assim:

Sou advogado há mais de 50 anos. Além disso fui vice-governador do Banco de Moçambique, membro da Comissão Admnistrativa do Rádio Clube de Moçambique, depois do 25 de Abril,membro do Conselho de Admnistração da RDP. Colaborei em A Voz de Moçambique, O Brado Africano, A Tribuna de Lourenço Marques. Fui director e escrevi na Objectiva 60, orgão do cine-clube de Lourenço Marques, de que fui presidente, bem como do Teatro de Amadores de LM (TALM). Colaborei ainda no Diário de Lisboa e na Capital. Fui co-autor do livro “O Julgamento dos padres do Macúti” e sou autor de diversos livros de direito, como Código Civil Anotado, Função Pública etc.

Este senhor é das pessoas com quem gosto de tomar uns chás e ouvir as suas histórias.

No seu blogue, Gaudium et Spes, que é um tesouro que ainda nem comecei a analisar, contém um texto resumido sobre o Zéca Russo.

O que ele conta ali quase que nem dá para acreditar.

Esse texto descreve a história do tal de Zéca Russo e que abaixo copio, com vénia. Mas aborda outras questões, que aqui censuro (o texto original pode ser lido na íntegra na ligação acima) para se manter algum foco, sendo de salientar que o Dr. Adrião Rodrigues estava em Moçambique na altura dos factos e ficou em Moçambique depois da Independência como Vice-Governador do Banco de Moçambique.

Então vamos ao Zéca Russo, na versão CMAR. O tal que eu vi do topo da árvore em frente ao Desportivo:

O Zeca Russo foi uma figura mítica na Lourenço Marques colonial. Filho ou sobrinho da moça das docas, figura que povoava os primeiros poemas do poeta Virgílio de Lemos, era jovem, bem parecido, simpático no trato mas cedo se começou a meter pelos trilhos do pequeno crime. Um furto aqui, uma burla acolá, adquiriu também a fama de ser uma espécie de Zé do Telhado que roubava aos ricos para dar a pobres. Não seria bem assim, mas a verdade é que ajudava a mãe, pessoa pobre que o adorava e não fazia a menor ideia da origem do dinheiro que ele lhe dava. Ao mesmo tempo Zeca ajudava familiares e amigos também pobres, com pequenas importâncias,cuja posse atribuía sempre ao trabalho ou a pequenos negócios de ocasião. Segundo me contou a sua advogada, Ruth Garcez, nesta fase ele sempre teve a preocupação de disfarçar e justificar a origem dos fundos que doava a familiares e amigos pobres, de modo que estes tinham por ele grande estima.
O mesmo já não acontecia com as vítimas dos furtos e burlas, que sabiam muito bem onde ele arranjava o dinheiro e não se coibiam de o divulgar. . Mas como os furtos e as burlas eram de pequenos montantes e o Zeca Russo era simpático e tinha fama de generoso, começaram a chamar-lhe Zé do Telhado mas não apresentaram queixa contra ele ou quando apresentaram, não se preocuparam em carrear provas para o processo, de modo que os seus pequenos crimes de juventude ficaram impunes.

Depois foi para a África do Sul, onde subiu uns patamares na prática de crimes, passando a dedicar-se em gang, a actos violentos contra pessoas e bens, sempre com o objectivo final de se apoderar de património alheio. Foi preso,mas, antes de julgado, conseguiu fugir e na fuga, ainda feriu um policia branco sul-africano o que deixou a corporação policial sul-africana com um ódio de morte ao Zeca Russo.

Veio para Moçambique, no principio da década de 1970 e, durante uns tempos, manteve-se sossegado. Mas quando viu que a África do Sul não requeria a sua extradição (nem podia) logo organizou a sua pequena quadrilha, de constituição multi-racial, e Lourenço Marques foi varrida por uma série de roubos e assaltos, sobretudo a casas e ourivesarias, de quantias elevadas, o que causou alguma perturbação na cidade.

Mas a policia depressa detectou e prendeu os autores dos crimes, que aliás confessaram.

Assim o julgamento que se seguiu não prometia grande espectáculo, porque se tratava de réus confessos e com abundantes provas contra e alguns poucos acusados como encobridores que questionavam tal qualificação.Todavia, por se tratar do Zeca Russo, o julgamento teve uma razoável cobertura mediática e grande assistência de público do qual se destacava uma claque que saudou, na primeira audiência o Zeca Russo como se fosse um herói. A advogada dele lá lhe disse que aquilo era contraproducente e as manifestações acabaram. A advogada era a Dr.ª Ruth Garcez, mais tarde a primeira juíza portuguesa, e que tinha a difícil tarefa de atenuar o mais possível a culpa do seu réu, o que fez com muito brilhantismo, sendo que os outros advogados a ajudaram, na medida em que organizaram uma defesa dos outros réus que não sobrecarregava a culpa do Zeca Russo. Mais tarde, quando a pena saiu mais pesada que o esperado, todos os advogados do processo apoiaram a Drª Ruth Garcez no recurso que interpôs, fornecendo-lhe apontamentos do julgamento e colaborando com ela no estudo de certos problemas, recurso que obteve uma substancial redução da pena. O Zeca Russo sentiu também esse apoio, de modo que ficou amigo dos advogados. Quando eu ia à penitenciária em serviço, muitas vezes encontrava por lá o Zeca Russo que gozava de um regime de semi-liberdade. De uma das vezes, eu aguardava no átrio um cliente meu que tinham ido chamar à cela e o Zeca Russo foi o primeiro a aparecer de um grupo da cadeia que ia jogar futebol fora. Só estávamos três pessoas no átrio: eu,ele e um guarda. De repente o guarda teve que sair para a rua e deixou o portão aberto e eu, de brincadeira disse ao Zeca Russo: -Você qualquer dia perde o prestigio todo, se estes tipos o deixam com porta aberta para a rua e você não foge. Por eu estar aqui não deixe de fugir que eu nem corro atrás de si nem grito “ó da guarda”. Ele riu-se e respondeu-me que não queria fugir, mas que tinha que pedir delicadamente aos guardas que o não deixassem sozinho, com a porta da cadeia aberta para a rua, porque era um desprestígio para ele. Depois, mais a sério, disse-me que os guardas sabiam que ele não queria fugir; o que ele queria era reduzir a pena com bom comportamento, perdões e amnistias, porque tinha um emprego prometido e queria mudar de vida.Acreditei nele.

(…)

… em 25 de Abril e em 7 de Setembro de 1974 estavam ambos, Tembe (um outro criminoso, este negro, relevante para o relato do Dr. CMCR) e Zeca Russo, presos em Lourenço Marques.

(…)

Uma das acções dos promotores do 7 de Setembro foi abrir as portas das cadeias, essencialmente com o objectivo de libertar os Pides presos, que saíram todos. Dos presos de direito comum, uns saíram, outros recusaram-se e ficaram. Entre os que ficaram, contavam-se o Tembe e o Zeca Russo, facto que muito impressionou a Frelimo, cujo governo, depois da independência, fez deles quadros da nova polícia. Assim, os dois acabaram em inspectores da PIC (Policia de Investigação Criminal do jovem país).

Como eles se comportaram nas suas funções, sei o que constava, que era muito mau, mas não sei se tudo o que constava era verdade e se, sendo-o, se era da responsabilidade deles.

Havia prisões a esmo, sem respeito pelos direitos das pessoas e prolongadas por períodos ilegais e inadmissíveis, aqui e ali maus tratos e violência. Os presos e expulsos do país, queixavam-se serem simultaneamente espoliados dos seus bens. A policia apreendia divisas,ouro e jóias, mas não constava que tais bens alguma vez dessem entrada num cofre ou depósito público. Mas era muito difícil verificar estas situações, mas lá que algo de irregular havia soube-o eu pelo que aconteceu. Um dia cheguei ao Banco de Moçambique, onde eu era vice-governador, e encontrei sobre a secretária um oficio da Policia ordenando a transferência de todas as importâncias depositadas em contas congeladas de um médico qualquer para uma conta da Policia junto do Instituto de Crédito de Moçambique.

De facto, meses atrás, aquando da nacionalização da medicina e do encerramento dos consultórios médicos, tinha sido simultaneamente ordenado o congelamento das contas bancárias dos médicos; mas tratava-se de uma medida provisória destinada a prevenir acções de pânico, sendo suposto que a breve prazo as contas voltariam à disponibilidade dos médicos seus titulares, como, de facto depois voltaram.

Porém, transferir o dinheiro depositado numa conta congelada, sem lei ou ordem judicial que o suportasse, para uma conta da Policia, era um puro acto de esbulho ilegal, mesmo tendo em conta a chamada “legalidade revolucionária” tão preconizada pelos juristas esquerdistas.

Resolvi telefonar ao meu amigo Dr. Eneias Comiche, então presidente do Instituto de Crédito, onde estava sediada a conta da Policia e fiquei a saber coisas para mim espantosas: que a policia dava, com frequência, ordens daquele tipo e que os bancos cumpriam (quanto ao Banco de Moçambique aquela foi a primeira e única vez em que tal ordem lhe foi enviada). Quanto à conta da Policia, ela de facto existia, ela era movimentada por uma única pessoa – o inspector Monteiro dos Santos (o Zeca Russo ) e à medida que abastecida era imediatamente posta a zero,com levantamentos pouco claros.

Imediatamente oficiei à Policia, informando-a de que, sendo ilegal o seu pedido, a transferência não era autorizada, e enviei uma circular aos bancos dando conta da irregularidade de tais procedimentos. Fiz, ainda, com o total apoio do governador, uma informação para o governo, dando conta da atitude do Banco de Moçambique e alertando-o que a disponibilizaçâo, por forças armadas, de verbas orçamentalmente incontroláveis, podia ter os maiores inconvenientes, tais como, por exemplo, a preparação de golpes de estado.

Fiquei à espera que um pedaço de “céu velho” me caísse em cima da cabeça. Mas nada aconteceu e a policia entrou na ordem quanto ao esbulho de depósitos.

Uma noite, estava eu só, no governo do banco, pois o governador tinha-se ausentado para uma reunião do comité central da Frelimo, apareceu-me um funcionário da casa forte, dizendo que tinha lá em baixo o inspector Monteiro dos Santos, da PIC (Zeca Russo), que pretendia inspeccionar a casa forte, para verificar as condições de segurança. O funcionário (um cooperante português) mostrava-se nervoso, esclarecia-me que tinha respondido que só podia facultar o acesso com autorização do governo do banco e pedia-me que, se eu a desse, fizesse o favor de o fazer por escrito.

A situação era delicada. O Zeca Russo era inspector da policia, invocava uma razão de segurança válida, do ponto de vista policial, mas eu tinha a certeza que as intenções dele eram outras, provavelmente verificar as possibilidades de assaltar a casa forte.

O Banco de Moçambique tinha iniciado a sua actividade de banco central com cerca de 150.000 contos de disponibilidades externas, o que correspondia a um chefe de família ter 100 euros para governar a casa durante um mês. Por razões que descreverei noutro capítulo, tinhamos conseguido melhorar a situação e, na altura destes acontecimentos, já dispúnhamos de cerca de vinte toneladas de ouro, em reservas, e de cerca de um milhão de contos em divisas fortes (US dólares,marcos e francos suíços). Claro que o ouro se encontrava em bancos estrangeiros e as divisas aplicadas externamente, mas na casa forte havia cerca de 200.000 contos em divisas fortes, uma grande quantidade de randes sul-africanos e uma tonelada de ouro. Enfim, mais do que suficiente para despertar a cobiça dos zecas russos deste mundo.

Pensei um bocado e tomei uma decisão que transmiti ao atrapalhado funcionário -diga ao Sr. Inspector que eu o não autorizo a ir inspeccionar a casa forte que está segura e à guarda do governo do banco. Se ele quiser traga-o ao meu gabinete que eu explico-lhe melhor a situação.

O homem sumiu-se e nessa noite nada mais se passou. No dia seguinte mandei chamar o funcionário e ele explicou-me que tinha transmitido as minhas palavras tal e qual ao Sr. Inspector e que ele se tinha ido embora sem nada dizer.

Resolvi contar o sucedido ao governador do banco e, pela primeira e única vez, ele não estava de acordo com a minha decisão e disse-mo: o inspector tinha a confiança do governo, estava no exercício das suas funções e, portanto, eu devia ter-lhe facultado o acesso. Respondi-lhe que a independência do banco central exigia que qualquer interferência da polícia nos seus assuntos internos tivesse a concordância do governo do banco e que não era muito natural que sem qualquer razão justificativa aparecesse um funcionário da policia a querer inspeccionar a casa forte; que, se admitíssemos tais práticas, a independência do banco desaparecia. Mais, que eu estava convencido, pelo que sabia da história do indivíduo, que a única explicação para o sucedido era o inspector estar a preparar um golpe. Mas que se ele, Alberto Cassimo, achava diferentemente desse ele a autorização, que eu não me ofendia nada com o assunto; só que não me metesse no processo. Aqui convém abrir um parêntesis para dizer que sempre fui muito amigo do Alberto Cassimo, pessoa de altas qualidades morais e cívicas, de uma inteligência brilhante e de uma seriedade a toda a prova. Esta foi a única vez em que num assunto importante não estive de acordo com ele.

Não tinha passado um mês sobre os factos anteriormente relatados, estava eu a ouvir o noticiário em português da SABC (South African Broadcasting Corporation), como costumava todos os dias de manhã, pelas 7 horas, quando sou surpreendido pela notícia dada com grande destaque, do assassinato, a tiro, num apartamento em Joannesburg, por um português, do inspector Monteiro dos Santos, vulgo Zeca Russo.

Segundo me disseram mais tarde, o assassino foi um angolano, sócio do Zeca Russo nos seus negócios moçambicanos e em consequência de um desentendimento quanto a contas. O caso foi tratado sem grandes parangonas e quase silenciado em Moçambique. O assassino foi preso e julgado e condenado, mas a uma pena relativamente pequena, para os hábitos da justiça sul-africana. Segundo me constou, mas não poude confirmar o facto, pouco depois de condenado, já o assassino andava em perfeita liberdade na África do Sul. A ser verdade, é evidente que o assassino não agiu só por conta própria. A verdade é que esta história macabra não teve grandes repercussões na história da África austral.

Com a notícia fresquinha, parti para o banco e fui dá-la ao governador Alberto Cassimo, que de nada sabia. Quís saber como tinha eu tido conhecimento e, quando lhe disse que era notícia da SABC, dessa manhã, achou que devia ser falsa e fruto de manobras sul-africanas para destabilizar Moçambique. Eu respondi-lhe que me não parecia que pudesse ser uma falsa noticia, já que a SABC nunca daria como verdadeiro um assassinato, ocorrido em Joannesburg e que afinal não tinha acontecido.

Umas horas depois o Cassimo telefonou-me, pedindo-me para passar pelo seu gabinete. Quando lá cheguei, ele estava transtornado e em pânico. A cor da sua pele era cinzenta e o suor caia-lhe em bica, apesar do ar condicionado e da temperatura amena. Disse-me que afinal se confirmava a morte do Zeca Russo e confessou-me que depois de eu ter recusado a autorização para ir à casa forte, ele tinha telefonado ao Sr. Inspector, convidando-o a ir lá; e o Sr inspector foi. Agora estava com medo que ele tivesse dado algum golpe. Sosseguei-o, disse-lhe que se alguma coisa tivesse acontecido, já tínhamos tido conhecimento, até porque o sistema de segurança era sofisticado, não era fácil assaltá-la, muito menos sem deixar rasto. Mas ainda mandámos fazer uma inspecção que deu o património como intacto. Falhara o último golpe do Zeca Russo.

Paz à sua alma…

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