THE DELAGOA BAY REVIEW

13/07/2011

O DESCARRILHAMENTO DE JEREMIAS

Filed under: Imprensa Moçambique, Jeremias Langa — ABM @ 1:27 am

Jeremias Langa não é um tipo qualquer. Por isso, quando pelo menos dois jornais portugueses nos últimos dias escarrapacharam no jornal que ele tinha plagiado um texto do insuspeito Manuel Maria Carrilho, um outrora genial e algo caprichoso socialista, pensei que fosse peta de 1 de Abril. Mas estamos em Julho e parece que foi verdade. Quando fui ver o que se passava no sítio da Soico, apenas encontrei a imagem em cima, o que pode indiciar mais do que diz. Uma pena e um infortúnio, para ele, para Daniel David, e para o jornalismo de Moçambique, que merecia mais.

O mais insólito foi a explicação dada pelo ainda director de informação da STV: que fora culpa do seu computador. Ou seja, não foi ele que plagiou, foi o computador. Inscrevendo-se o grande Langa numa das três mais legendárias desculpas esfarrapadas da era moderna e que são, segundo um memorável administrador de um banco com quem trabalhei h+a uns tempos e que são, em inglês:

1. It’s the computer’s fault
2. The cheque is in the mail.
3. I will not come in your mouth.

Diga-se que o plágio para mim alterna-se entre o maior elogio – não é qualquer gajo que é plagiado – e quiçá o refúgio dos que ou não têm a capacidade ou o tempo de pensarem por si própios as coisas, ficando na boca o sabor rançoso de que buscam para si próprios a autoria alheia para taparem o buraco intelectual ou apenas para poupar trabalho.

No meu caso, gostava de referir, que por pura pirraça, uma vez na vida plagiei. Quando, acabado de chegar aos Estados Unidos, tirei um pequeno curso de escrita em inglês (na altura foi chocante o que eu descobri sobre a língua portuguesa) eu achei que o professor (um jovem estudante de pós-graduação a ganhar umas massas extra) andava-me a chatear demais com as minhas (inúmeras) deficiências. Peguei então num fabuloso texto sobre liberdade de expressão que tinha lido numa revista daquelas que circula nos EUA aos milhões, tirei-lhe três vírgulas e martelei-o na minha hoje jurássica máquina de escrever. Na manhã seguinte, silencioso, entreguei-lhe as três folhas cuidadosamente dactilografadas. No dia seguinte, a sua resposta, numa linha: “interessante, mas necessita de muito trabalho”. Ali tive a minha confirmação de que o tipo era um idiota.

Mas a verdade é que aprendi muita coisa com o Tal idiota. Ou melhor, aprendi a diferença entre o que é escrever em português e escrever em inglês. Coisas como escrever parágrafos menos tortuosamente longos, nunca usar o “nós” quando me refiro a mim, a tentar fazer com que os textos tenham princípio, meio e fim, etc etc. Lentamente, aprendi a apreciar a língua inglesa mais por dentro, o que, para alguém que cresceu a pensar e a falar em português, foi, tem sido, uma fabulosa experiência.

E duplicou o meu prazer em entupir alguns textos em português com aqueles inexcedíveis, inúteis, rutilantes, descabidos adjectivos.

O actual meio electrónico presta-se facilmente ao plágio e ao copianço. É o domínio perfeito para quem não quer pensar. Nem consigo imaginar o que é ser professor hoje em dia, pois imagino que a maior parte dos estudantes passa o ano no forrobodó e na noite antes de apresentar os trabalhos, vai à net e clic, clic, clic, meia dúzia de copy-pastes, uma martelada final e já está.

Aqui só falo por mim: o que escrevo neste blogue sai da minha cabeça, e se não sai refere quem escreveu, quem disse e com referências.

Mas já não é a primeira ou a segunda vez que algo que eu escrevo sai noutro lugar qualquer, ou omitindo a minha autoria, ou simplesmente eliminando o meu nome e colocando o de outra pessoa. Um dos artigos mais lidos que eu já escrevi na internet (acho) é uma resenha da história de Maputo centrada na actual Rua de Bagamoyo, que já vi reproduzido de todas as formas e feitios. Até já tive amigos meus a enviarem-ma por correio electrónico acompanhado de uma mensagem do tipo “tu que gostas de coisas sobre a história de Moçambique tens que ler esta” – sem saberem que fora eu que a escrevera.

O problema do Jeremias com esta situação é que, como Daniel David, quase toda a gente perdoa.

Claro que perdoa.

Mas como Daniel David, a gente não esquece.

Talvez o melhor mesmo seja que Jeremias compre outro computador. E que cite.

Com aspas.

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