THE DELAGOA BAY REVIEW

03/10/2018

A CENSURA COLONIAL EM MOÇAMBIQUE, DÉCADA DE 1960

Da direcção e velocidade com que os chamados Ventos da História varreram do mapa, tardiamente, as experiências coloniais portuguesas, resultou, fruto do esquecimento, do pouco estudo e do triunfo do politicamente correcto, especialmente em certos círculos afro-cêntricos e de esquerda, que contam as histórias como melhor se ajusta às suas mundividências do momento, uma descontextualização que facilita uma demonização do sistema colonial por vezes bem para além daquilo que era (e que já era suficientemente mau), ignorando alguns factos que são críticos para aquilo que é o objecto fundamental do estudo histórico: entender os contextos, os processos subjacentes e, principalmente, a Verdade.

O patrocínio dessas pessoas, e dessas perspectivas, imperou, especialmente entre as décadas de 1960 e 1990, quando o Mundo viveu a bipolaridade entre o Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, e os impérios comunistas, liderados pela extinta União Soviética e a República Popular da China.

Mas as clivagens não se encontravam aqui, sendo que muita da produção académica nesta altura – e até esta data – era e permanece influenciada por o que considera um erro de paralaxe indesculpável, tão indesculpável como eram as interpretações feitas pelos académicos de serviço promovidos pelo regime colonial português.

Tudo se resume a uma questão de escopo, como desabafou uma vez, algo frustrada mas sabiamente, Michel Cahen, um dos profissionais académicos referenciáveis na historiografia respeitante a Moçambique, a propósito da análise dos factos e do uso das fontes coloniais como bases para a formulação da análise e a dialéctica histórica.

Pois como referi uma vez, enquanto estudava na Universidade de Brown, há muitos anos numa aula de História de África em 1981, ministrada pelo saudoso Professor Newell Maynard Stultz, daqui a 200 anos, o regime do Apartheid na África do Sul (então um assunto explosivo e a ferro e fogo) seria pouco mais que um episódio passageiro no longo percurso da evolução da comunidade humana e dos seus valores, como foram os impérios egípcio e romano, as conquistas de Alexandre o Grande, Napoleão e Adolf Hitler.

Este é um trabalho contínuo – uma luta constante.

 

A minha primeira máquina de escrever. Para além da roupa e de uns livros, fez parte dos 17 quilos com que saí de Lourenço Marques em 19 de Fevereiro de 1975, com 15 anos acabados de fazer, para ir estudar em Coimbra, num vôo da TAP. Hoje uso um computador HP.

 

E uma das alegadas “verdades incontestáveis” é uma putativa dicotomia na sociedade colonial entre os colonizados negros e os seus colonizadores brancos (a questão epidérmica não é inconsequente, apesar dos apregoados bons ofícios do primeiro presidente da República Popular, “eleito” por inerência ao cargo de chefe da guerrilha a quem foi entregue o poder, administrativamente).

A dicotomia consistia nos primeiros serem o único alvo da ditadura e nos segundos viverem no bem-bom, livres da opressão que a caracterizava. Os primeiros seriam oprimidos, levavam porrada da PIDE, não tinham direitos, os segundos beneficiavam de uma liberdade considerável e eram quase isentos de punições, habitualmente colaborando quase entusiasticamente com o regime.

Provavelmente era assim em muitos casos, se calhar numa maioria.

Mas se era assim, então porque é que a máquina colonial sentia que tinha que recorrer aos instrumentos de repressão tais como as “Instruções Gerais”, emanadas nos anos 60 e reproduzidas em baixo e que davam corpo a uma instenção óbvia de repressão à liberdade de imprensa e à opinião pública, dirigida principalmente aos meios de comunicação utilizados pela minoria branca/portuguesa colonial?

Então mas eles não achavam aquilo tudo excelente?

Eles não colaboravam alegremente com o regime colonial?

Ou será que havia, de entre os putativos colonos, resistência à ditadura e ao regime?

E se havia, se houve, porque é que ela é, ao contrário da “resistência africana” frequentemente descurada nas análises daquela era?

Afinal, foi o golpe de Estado militar promovido pelo então Major Otelo, ele um curioso produto da sociedade lourenço-marquina, que tinha por objectivo final libertar a sociedade portuguesa da ditadura de partido único e consequentemente encerrar o capítulo colonial, a causa imediata do fim do regime, que tudo indicia já se preparava para mais uma adaptação. Fim de regime que já se pressentia seria doloroso e pernicioso, especialmente para os povos colonizados, como se veio a comprovar, a começar pelas suas liberdades de imprensa e de pensamento, que ainda hoje em Moçambique, volvido meio século de soberania, são alvo de repressão, de infindáveis comentários editoriais e o ocasional jornalista morto ou espancado.

Mas, como referi, é tudo uma questão de escopo.

E de luta pela verdade e pela liberdade.

Leia o Exmo. Leitor esta jóia da jurisprudência colonial, em que nos matavam todos com amor:

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