THE DELAGOA BAY REVIEW

11/09/2012

ANALISANDO AS MEDIDAS ADICIONAIS, 11 DE SETEMBRO 2012

“Plus ça change, plus c’est la même merde”. Ou coisa parecida. Às 21:59 horas, sentei-me em frente à televisão para ver os jornalistas da SIC Notícias tentar explicar as novas “medidas adicionais”, o novo eufemismo para a crescente miséria comunizante curiosamente imposta por uma alegada coligação de centro-direita, quando precisamente nove minutos depois de iniciado o noticiário, às 22:09 horas, soube-se que a equipa de futebol portuguesa havia vencido a dubiamente capaz selecção do Azerbeijão por 3 a 0. Imediatamente a crise e as “medidas adicionais” foram largadas e até à meia noite só se falou ad nauseum sobre a vitória azerbeijã. É para se ver quais são as verdadeiras prioridades nos média portugueses: futebol primeiro, crise para mais tarde. Nunca hei-de entender este país. Ou talvez entenda.

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28/06/2012

PORTUGAL EM 2012: À PROCURA DA DESRESPONSABILIZAÇÃO

900 anos de pára e arranca, entre o infame e o sublime. Em 2012, está-se numa fase do infame.

O Zé Pedro Cobra achou por bem fazer o comentário no vídeo em baixo, batendo numa cultura nacional de (total) irresponsabilidade e do implícito no termo “faça-se” como corolário da mesma.

Mais profundamente, creio que se vive ainda os resquícios da ausência de um contrato social exequível entre uma classe dominante predadora e por vezes parasita que domina o sistema político e económico português desde meados do Século XIX, e uma multidão vasta, beata, miserável e despossessa, que sobrevive e que cada vez mais foi mais explorada pela primeira.

Momentaneamente, no delírio revolucionário e infantil logo após 1974, pensou-se que seria o contrário (os comunistas certamente o pensaram, e os socialistas tentaram, mas falharam redondamente) mas não. Nem pensar. Apenas saíram uns ladrões profissionais (Salazar, que apenas roubava as almas e a liberdade, estava fora de cena há seis anos) e entraram outros, mais amadores.

Mas aprenderam depressa.

A culpa é de todos, pois a prática, fartamente sancionada por leis que não funcionam, por tribunais que não funcionam, por pessoas que, num relativismo moral perfeitamente negociado, não consideram a irresponsabilidade criticável, é sancionada, tornando-se a norma social numa espécie de gangsterismo à escala industrial, em que o pequenino aldraba um pouco, e o grande aldraba correspondentemente mais.

E o país que têm no fim é resultado disso mesmo: uma incongruência venenosa, sempre irreconciliável a prazo e economicamente inviável, embrulhada numa bandeira verde e encarnada. Pois os ricos e os que mandam sempre acabam por beneficiar, lavando depois as mãos como Pôncio Pilatos da xafurdice nojenta que conseguem criar para extorquir o seu quinhão e os despossessos (ou a um minguante subsídio do desemprego para o serem) mesmo sendo conservadores e votarem PSD e CDS e irem à missa, acabam por ser enrabados, ficando com a farta conta por pagar, na forma de impostos e taxas acrescidos e um padrão de vida muito mais baixo.

Exceptuando os ricos que meteram o dinheiro em bancos situados em praças financeiras inauditáveis, através de entidades offshore imprescrutáveis, ser-se português no início do Século XXI é sinónimo de se ser pobre, de não se ter oportunidades na vida, com a novidade de agora isso abranger todas as gerações (pois não vai haver dinheiro para pagar reformas e a despesa médica, não como até agora).

“Faça-se, pague-se”.

O resultado que se vê estes dias ameaça tornar o regime numa espécie de socialismo conservador de chacha duma pseudo-direita fabricada, mais uma vez buscando mais um créditozinho externo para tapar o buraco e mais uma onda de emigração por parte daqueles (agora pobres mas supostamente educados) que ainda têm a vida pela frente e que querem ganhar algum, confirmando a impenitente incapacidade do país de se reformar e de responsabilizar as pessoas e as instituições apesar de tudo o que já se sabe.

Salazar e Cunhal lá em cima devem estar a rebolar-se no chão a rir, desta vez os dois juntos e pela mesma razão, para variar.

Mas eles são apenas o outro lado, quiçá mais quixotesco, da mesma moeda.

E essa moeda é esta cultura e mentalidade do sucesso através do favor, da cunha, do amigo que coça as costas do amigo, do algo em troca de nada, do querer ter e não querer pagar,  da mediocridade encapotada em graus académicos inventados,  das leis feitas à medida, com buracos também feitos à medida, da burocracia sufocante que emascula.

E, acima de tudo, da impunidade, a social e a formal.

O excentrismo português em relação à Europa não é só geográfico: é também mental, cultural e moral. E, infelizmente para os portugueses, os centro-europeus não querem pagar os custos inerentes à irresponsabilidade. Em parte porque, na medida do possível, não têm que o fazer.

Por isso o Zé bem pode fazer estes vídeos. E fez bem em fazer este. Mas na minha opinião, e por enquanto, ele está apenas a mijar contra o vento.

15/03/2012

A ENERGIA DOS LOBBIES DA ENERGIA

O próximo secretário de Estado da Energia português. O outro já foi. Veja em baixo porquê.

 

Não é interessante para mim que Henriques Gomes, se tenha demitido há dois dias do à primeira vista pouco interessante cargo de Secretário de Estado da Energia do governo de Pedro Passos Coelho.

Isto apesar de os portugueses, por razões que não estão directamente relacionadas com o mercado (que está em alta) estão neste momento a pagar, quase em termos absolutos mas certamente relativas ao seu poder de compra, a energia mais cara da Europa. Falo de gás, electricidade e combustível automóvel, que se aproxima dos dois euros o litro nalguns casos. Ao ponto de, nas fronteiras com Hespanha, já ninguém se abastece de gás e combustíel deste lado da fronteira.

O que me chamou a atenção para s sua demissão foram duas coisas: 1) as razões que o levaram a demitir-se, e 2) que se tenha sabido tão depressa.

Deixo o jornalista José Gomes Ferreira, da estação de televisão portuguesa Sic, que tem andado dentro destas coisas, explicar curto e grosso e depressa.

O QUE VALE A CONFIANÇA EM TEMPOS PERIGOSOS

2012 promete ser um ano muito mais interessante que 2011.

Já outro dia falei sobre isto: mas afinal o que é que os portugueses sabem que os outros não sabem?

Ou, alternativamente: o que é que os outros sabem que os portugueses não sabem?

Segundo os dados destes senhores, que citam estes senhores (Crédit Suisse Economic Research), está em curso e à velocidade máxima, o que aparenta ser a fuga maciça de depósitos bancários dos cinco países que compõem a linha da frente da Desgraça Europeia (Itália, Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda), enquanto que olhando apenas para dois, que são a França e a Alemanha (por enquanto, e cuidado que os dados são de há dois ou três meses atrás) o volume de depósitos está a subir significativamente. (ver TABELA 1).

No entanto, e só por piada, fui ver os dados mais recentes do Banco de Portugal para os depósitos bancários nacionais, e os dados até final de Dezembro de 2011 indicam uma subida significativa (ver TABELA 2), maior que nos tais outros países para os depósitos estão a subir.

Isto sugere que, enquanto que os depositantes da Espanha, Itália, Grécia e Irlanda estão a tirar ou a transferir o seu dinheiro dos bancos locais a toda a velocidade, os portugueses depositam mais do seu dinheiro nos seus bancos do que nos últimos anos, bancos cujas actuais notações de risco estão piores que um Fiat Panda em segunda mão com 150 mil quilómetros.

É fantástico.

Das duas umas: ou os portugueses lá sabem o que estão a fazer.

Ou quando o martelo bater, o estoiro vai ser de proporções épicas.

O mais provável é que a maioria não sabe como é que se abre uma conta lá fora.

Ou não entende o que se está a passar.

Qual será?

Vamos esperar para ver.

TABELA 1. Enquanto os depósitos dos Euro Area Pig 5 caem abruptamente, na França/Alemanha sobem. Ajudava se estivessem aqui a Suíça e o Reino Unido e as suas praças offshore, para onde muito do dinheiro deve estar a ir.

TABELA 2. No meio da desgraça, parece que os Heróis do Mar Nobre Povo Uno & São Valente & Imortal, não só poupam muito mais mas metem-no todo no seu banco da esquina. De notar que a tabela mede, em percentagem, a velocidade do crescimento/decréscimo dos depósitos, mês a mês, anualizado. Em Novembro e em Dezembro, as figuras são 9.4% e 9.4% (Fonte: Estatísticas do Banco de Portugal, 20 Fevereiro de 2012)

12/03/2012

CAVACO SILVA – REFLEXÃO SOBRE UM PRESIDENTE EM FIM DE MANDATO

Aníbal Cavaco Silva, numa re-interpretação fotogáfica minha. Na verdade, estive a testar um programa que é suposto pintar fotografias a preto e branco e o resultado foi este. Serve para ilustrar o que tenho para dizer em baixo.

Os norte-americanos têm um nome para os presidentes durante o final do seu segundo mandato: lame duck . Que em português quer dizer qualquer coisa como “pato mole”. O termo é suposto traduzir a incapacidade do presidente, a partir de certo ponto do seu segundo e último mandato de quatro anos (em Portugal é cinco) de conseguir, ou até de ter legitimidade para, tentar tomar certas iniciativas, legislativas ou outras, especialmente após o seu sucessor ter sido escolhido.

Portugal não segue bem estes rituais, em parte porque os seus presidentes, dada a natureza parlamentar dos sucessivos regimes republicanos e o seu incestuoso alinhamento com os poderes “moderadores” da monarquia a partir da segunda metade do Século XIX, não mandam: “presidem”.

E presidir vale o que vale, dependendo muito de quem desempenha o cargo, das circunstâncias e, até certo ponto, do que diz aquela obra de rendilhados socialisto-democráticos que é a actual constituição.

Em princípio, formalmente, um presidente português pode fazer pouco em relação a um governo que não lhe presta vassalagem. Pode vetar as leis mas logo a seguir é fintado numa segunda votação. Pode mandar fazer algo eufemisticamente chamado “fiscalização preventiva da legislação”, que é uma forma muito portuga de mostrar que não acha piada ao que lhe é metido à frente para assinar mas que, à falta de melhor, manda para os senhores do Tribunal Constitucional dizerem de sua justiça. O resultado disso vai depender de se o douto tribunal está cheio de amigos, povoado de constitucionalistas convictos, ou se de facto o governo do dia é tão idiota que elabora leis inconstitucionais. A realidade tende a ser uma mistura das três.

Uma das formas muito populares de um presidente português tentar influenciar a agenda política nacional é ir à televisão e mandar papos. Os mandatos de Mário Soares só são memoráveis por isso e por ele agir como se fosse um monarca, fazendo “presidências abertas”. A imprensa, sem mais que fazer, ia a reboque.

Sendo que os portugueses actualmente seguem a política com base nos primeiros doze minutos e meio dos telejornais das televisões, que habitualmente ajem como se estivessem quase sincronizadas naquilo que sai nesses preciosos minutos. As máquinas partidárias e a entourage presidencial já sabem o suficiente para manipularem as coisas de forma a que a declaraçãozinha com a bombinha seja feita a tempo do vídeo voltar para a estação de televisão, ser tratado, editado, analisado e comentado, para sair como um acto político de significado “presidencial” às 20 horas, a hora tardia em que parece que a maioria dos portugueses assiste impávida aos noticiários, presume-se que sentada na mesa de jantar e com a colher de sopa na boca.

Nestas questões da comunicação política, os portugueses são ajudantes de ajudantes de amadores se comparados com o que se passa nos Estados Unidos, realidade que conheci e acompanho. Mas o PS de José Sócrates, ainda que duma forma mafiosa e aparolada, chegou perto de um grau elevado na arte da feitiçaria comunicacional. Houve dias em que eu pensava que os alinhamentos das notícias eram feitos num gabinete em São Bento pelos seus assessores (continuo a achar que foram). Por mais que uma vez, despediram jornalistas, puseram jornais e televisões em alvoroço, encostaram a Procuradoria Geral da República e a Polícia Judiciária à parede, numa curiosa versão berlusconorrasca da democracia.

Tudo isto nos traz ao Prof. Aníbal Cavaco Silva e a esta semana.

Aníbal Cavaco Silva é um pequeno puzzle comunicacional. Tem zero de charme e ainda menos presença. Não tem quase jeito nenhum para comunicar. Mas eu suspeito que, paradoxalmente, a sua índole, tal como a do actual ministro português das finanças, faz o gosto de muitos portugueses precisamente por causa disso: tirando Mário Soares, que se desenvolve muito bem em frente e atrás das câmaras e à sua maneira engana gregos e troianos enquanto faz o que lhe apetece, praticamente todos os líderes portugueses de renome eram de uma ineficácia comunicacional absolutamente atroz, a começar por António de Oliveira Salazar, que falava sentado a olhar com os óculos para os papéis, que governava por decreto pessoal fechado no seu gabinete à tarde (com algum apoio de Pides, GNR e companhia) e que tinha uma voz que mais parecia o Pato Donaldo. Sintomático é que este ditador durante quatro décadas e que mal aparecia na rua é por muitos admirado e considerado o Português do Milénio.

Têm em comum terem sido estudantes com boas notas de famílias rurais sem grandes recursos, tornados professores universitários com cátedra e falsos modestos – “anti-políticos” – assunto que por si só dava para escrever mais um artigo.

Ramalho Eanes era mais ou menos a mesma coisa, mas uma versão militarizada e não académica. Rígido, militarista, formal, anal-retentivo, distante, usando fatos baratos, falava com um tom de voz que parecia sempre que estava a pregar um ralhete a quem o estivesse a ouvir. Foi um herói subestimado que em 1975 afastou Portugal do caos comunista da troika Cunhal-Costa Gomes-Vasco Gonçalves, presidiu a tempos muitos difíceis e fez um bom trabalho dadas as circunstâncias, mas em termos comunicacionais parecia que ele, e o seu país, estavam noutro planeta.

Jorge Sampaio parecia-se um pouco mais com Mário Soares mas sem o mesmo talento e aparentando estar sempre à beira de um ataque de nervos. Socialista, presidiu ao gradual e inexorável afundamento do seu país sem parecer dar minimamente por isso, usando uma vez uma raramente utilizada prerrogativa presidencial para expelir Pedro Santana Lopes (e o PSD) do cargo de primeiro-ministro e no seu lugar instalar, por puro acaso da oportunidade (na altura rolaram mais do que uma cabeça nas chefias dos partidos) um então obscuro ex-ministro socialista do Ambiente do qual não se sabia ao certo se tinha ou não um curso, se tinha ou não recebido luvas por causa de um centro comercial na outra margem do Tejo, se sabia o que ia fazer ou não, se sabia falar inglês técnico ou não (não sabia).

O seu nome era José Sócrates.

Quando foi eleito presidente, em parte pela habitual falha no grau de abertura do regime actual (eleger-se um Obama em Portugal é uma impossibilidade matemática), em parte resultado de uma doentia propensidade para se apostar nos habituais profissionais políticos senatoriais, bem oleados e conectados, Aníbal Cavaco Silva era suposto ajudar, de alguma forma, a contrariar, ou pelo menos atenuar, os efeitos da então “avalanche socialista”.

As alternativas na eleição de então eram más demais para contemplar, o que facilitou a sua escolha.

Havia em muita gente a impressão que, depois do assassínio de Sá Carneiro, Cavaco encaminhara o PSD e Portugal. Hoje sabe-se que não foi nada disto, mas enfim.

Na altura, o Partido Socialista detinha uma maioria absoluta, que bisou em 2009, aumentando vergonhosa, imoral e fraudulentamente os salários dos funcionários públicos e criminosamente gastando o que já se sabia era totalmente incomportável para os contribuintes. A maioria do eleitorado, estupidificado, seguiu-o.

Mas o que Cavaco fez após ter sido eleito não foi equilibrar coisa nenhuma. Erradamente, foi à televisão e disse que iria cooperar piosa, discreta e pacificamente com o governo de José Sócrates, sabendo-se que pretendia exercer a sua putativa influência (que era, como se pode aferir, zero) nos bastidores, a partir da velha residência de D. Carlos e Dona Amélia na Freguesia de Santa Maria de Belém.

Sorrateiro, José Sócrates fez os habituais gestos conciliatórios em prime time mas de facto marimbou-se completamente no presidente, que, complexado por natureza, nem sequer sabia bem como reagir, e literalmente fez o que lhe apetecia e com quem lhe apetecia.

E, em jogos de bastidores, e na comunicação social, Sócrates batia Belém dez a zero.

A oportunidade para a vingança de Cavaco Silva surgiu imprevisível e veio de fora, quando, resultado de um acto de loucura premeditada, as autoridades nos EUA deixaram o banco norte-americano Lehman Brothers falir no início do Outono de 2008.  No espaço de um ano, Sócrates, idiota como sempre foi (o qualificativo é retrospectivo, na altura apenas se suspeitava) apressou a falência da República e o fim do Estado Socialista, pois não se pode ir gastando cada vez mais e ir aumentando os impostos com nomes pomposos, se orwellianos (lembram-se dos “Planos de Estabilidade e Crescimento”? “Novas Oportunidades”? “Rendimento Social Garantido”? “Plano Tecnológico”? please…) e não esperar que a bomba não exploda.

A bomba explodiu, e de que maneira, em Abril-Maio de 2011, quando uns telefonemas urgentes de Londres e Bruxelas avisavam que a falência do estado português estava por semanas, ou mesmo dias. Os chefes dos bancos privados até foram às televisões, suando e piscando o olho aflito para quem percebesse, que a coisa estava por dias. Concretamente, se os bancos não conseguissem assegurar a sua liquidez, faliriam em dias, precipitando uma crise económica e financeira de proporções inimagináveis. Já então, como desde então, Portugal vivia de balões de oxigénio concedidos avulsamente pelo Banco Central Europeu. Nessa altura, a pouca vergonha que foi, e é, a fraude criminosa do BPN e a falência inexplicada do BPP, já decorriam alegremente, com milhares de milhões de euros dos contribuintes a fluir sabe-se lá para onde, para quê e porquê. Burros, os jornalistas não conseguiam, ou não queriam, explicar.

Pedro Passos Coelho, então um obscuro produto da máquina do PSD, sem qualquer experiência de governação e com o mesmo tipo de CV extremamente duvidável que José Sócrates, mas com mais juízo e mais bem assessorado, fez a sua jogada.

Como lhe competia, escondendo o seu alívio na pompa presidencial e no seu feitio professorial introspectivo, Cavaco Silva convocou novas eleições. O PSD venceu com uma maioria absoluta cozinhada com Paulo Portas (que se tornou na Hillary Clinton portuguesa, salvo seja) e Sócrates exilou-se em Paris, mantendo os telemóveis de Portugal em roaming.

E aqui estamos nós, nove meses depois disso, em que, pela primeira vez em cento e vinte anos o país está falido (e a piorar em cada dia que passa) e pela primeira vez na Terceira República há uma maioria idologicamente alinhada em termos de governo, parlamento e presidente e expeditamente já se assinou um termo de dívida inexequível e se começou, em vez de cobrar impostos, a extorqui-los alegremente.

Neste contexto, qual tem sido o desempenho do Prof. Cavaco Silva?

Numa curta palavra: medíocre.

Ele bem tenta fazer alguma coisa. Mas não consegue. Não se consegue perceber o que é que ele anda a fazer e a dizer, nem porque é que ele diz o que diz quando o diz.

Diz que quer consolar e encorajar os portugueses a enfrentar os demónios soltos por José Sócrates e o Estado Socialista (que em boa parte ele, Cavaco, criou) mas depois faz afirmações desconexas e estupidificantes sobre a sua reforma milionária, as suas mais valias milionárias no BPN, as explicações mais obtusas sobre como comprou um palacete de mais que um milhão de euros no Algarve via uma troca da sua prévia, muito mais modesta casota, a sua dificuldade, vivendo ofuscadamente num palácio à custa do erário público e com nada menos que três reformas milionárias, em pagar as suas contas pessoais. Numa ocasião referiu que devemos estar caladinhos e não comentar as agências (americanas, ainda por cima!) de rating, uns meses depois diz precisamente o contrário.

Ele, que é um retrato fiel e acabado do que significa ser um político profissional no Portugal moderno, passa a vida a querer sugerir que não o é. Diz que não: que foi técnico no Banco de Portugal e Professor universitário (pois, tem as reformas milionárias para o demonstrar). E que só está na política para servir os portugueses. Claro Aníbal, we believe you. Pior, tenta ir mais longe ao querer protagonizar-se como um anti-político, sabendo que as sondagens indicam que o eleitorado está farto deles todos até à ponta dos cabelos.

Ele, que agora é suposto estar alinhado ideologicamente com quem manda, não se importa de enviar repetidos sinais no sinal contrário, colocando em cheque as medidas draconianas que estão sendo postas em vigor para evitar a todo o custo o percurso grego (e para tal, não basta dizê-lo repetidamente). Passos Coelho e os seus correligionários mais do que uma vez devem ter ficado a meditar se este presidente está do lado deles ou contra eles.

Ele, que aparenta não ter equipa de comunicação a assessorá-lo, pelo menos uma capaz, não dá conferências de imprensa ou comunica eficazmente o que tem para dizer, limitando-se a fazer o que parecem declarações de improviso, à porta de um sítio qualquer que vai inaugurar ou visitar, invariavelmente dizendo coisas em que não batem a bota com a perdigota, em vez do que se presume ser o que devia estar a dizer e fazer estes dias: apoiar os esforços do governo e principalmente dos portugueses nesta fase infame das suas vidas.

A semana passada, intestinalmente, a propósito de uma obscura publicação qualquer que praticamente ninguém lê, tudo indica que fez o que comentadores referem como um ajuste de contas a posteriori com o politicamente defunto José Sócrates. Diz-se traído por este – até institucionalmente! Touché. Só foi relevante por ter saído agora e por ter sido basicamente um disparate – mais um. Se não se dava com ele, tivesse-o dito na altura, despedisse-o, não é agora que se aceita que venha registar as suas incapacidades publicamente. Pior, dá um ar infeliz de tó-tó presidencial, ter-se submetido às sevícias de Sócrates sem nada fazer e nada dizer quando podia e devia tê-lo feito.

Ou isto fazia parte da gestão discreta da sua influência?

A passada semana assinalou também o fim do primeiro dos cinco anos deste segundo mandato do Prof. Cavaco Silva.

O lugar dele, prerrogativas e dispensações constitucionais aparte, é em boa parte aquilo que ele fizer dele (do lugar). Do que se viu do primeiro ano, os receios inerentes quanto ao que ele possa dizer e fazer nos próximos quatro anos, não deixam muita margem para conforto, sendo que o caminho a seguir é relativamente claro: o imperativo económico manter-se-á, e reza-se que do súbito empobrecimento nacional, da venda a retalho do que resta de uma soberania que levou mil anos a construir, não resulte o caos social.

Neste contexto, o que pode fazer um presidente português?

Muita coisa, mas nada do que Cavaco tem andado a fazer há um ano seguido.

Portugal já vive uma emergência, não precisa de ter alguém no cargo presidencial que parece não saber quando usar o fósforo para atear o fogo, ou um balde para o apagar.

Entretanto, num outro registo, Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e António Vitorino pré-posicionam-se para o sucederem. O mero facto de já andarem a contar espingardas assinala o próximo estatuto de Cavaco Silva como pato mole.

25/02/2012

O IMPÉRIO SOCIALISTA CONTRA-ATACA, 2012

A política portuguesa às vezes mete nojo. A procissão ainda nem chegou ao adro e já se assistem aos mais elaborados malabrismos.

A verdade é que este ano os efeitos decorrentes dos inacreditáveis níveis de endividamento público, privado, soberano e bancário vão-se começar a abater sobre a população, sem contar com a necessidade de se aumentaram mais os impostos, as taxas, as tarifas e mais sei lá o quê.

E o que é que o Partido Socialista, agora em oposição faz?

Pisca o olho. Pisca o olho como se nada tivesse que ver com o que aconteceu e, mais grave, pisca o olho como se pudesse existir alguma via alternativa ao que está a começar a acontecer.

Parafraseando de um outro blogue:

 

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