THE DELAGOA BAY REVIEW

29/03/2011

A IGREJA, O ESTADO E O ENSINO COLONIAL, POR FILIPE ZAU

A fachada da catedral de São Pedro no Vaticano.

Com vénia, reproduzo em baixo um interessantíssimo artigo publicado no Jornal de Angola (Luanda) de hoje. Sendo o seu enfoque primário Angola, não deixa de conter informações transversais ao que se passou um pouco por todo o império colonial português.

O autor é o Doutor Filipe Zau, que, segundo indica o jornal, é doutorado em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais.

Segue o texto, tal como publicado, incluindo o título original da peça.

A IGREJA NA LUTA PELA INSTRUÇÃO E A INDEPENDÊNCIA

Quando a administração colonial, após o início da luta armada em Angola, pôs fim à Lei do Indigenato, incrementou a rede de escolas públicas e procurou aumentar o número de professores, alterou de forma significativa o índice de escolarização na colónia, sem que essa evolução positiva tivesse satisfeito as necessidades de aprendizagem da maioria da população angolana, nomeadamente, em áreas rurais.
Entre 1964 e 1969, formavam-se, em média por ano, nas escolas do magistério existentes, cerca de cem professores primários, o que era manifestamente insuficiente.

Em 1973, o número de alunos, em todo o ensino primário, correspondia a 512.942, um terço dos quais portugueses. Apesar do enorme esforço levado a cabo pela administração colonial, de um momento para o outro tornava-se impossível recuperar o tempo perdido. Para além disso, os sistemas educativos são incapazes de dar respostas imediatas e eficientes às expectativas políticas de curto prazo. A formação de professores e gestores educacionais de qualidade é sempre demorada e, como refere António Nóvoa, “não há ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem uma adequada formação de professores”.

Um ensino religioso

Salvo as iniciativas levadas a cabo pelo manicongo Mvemba-a-Nzinga de formar núcleos escolares no reino do Congo, em Angola não havia uma tradição de ensino sistematizado e o número de pessoas cultas ou que desejavam cultivar-se era ínfimo. A maior parte dos portugueses residentes em Angola passava os anos a amealhar um pecúlio que lhes permitisse viver desafogadamente na metrópole, de onde, muitas vezes, não saíam as mulheres, nem os filhos.

No início do século XIX, as missões encontravam-se em franca decadência, sendo, em 1834, extintas as ordens religiosas. Por essa altura, em Luanda, só havia um padre capuchinho e um carmelita.
Antes da primeira metade do século XIX, o ensino estava entregue aos jesuítas e o esforço para estabelecer o ensino público foi infrutífero. De recordar que, pela Lei de 3 de Setembro de 1759, o marquês de Pombal mandou extinguir a Companhia de Jesus, o que colocava, desde logo, os ensinos primário, industrial e agrícola sem mestres e ao abandono. O decreto de 15 de Dezembro de 1856 abriu novas oportunidades aos sacerdotes europeus para paroquiar nas igrejas de Angola e Moçambique, proporcionando, entre outras regalias, passagens, ajudas de custo, aumento de gratificações e um excedente para o serviço de ensino.

No dia 7 de Abril de 1857, o Conselho Ultramarino, que havia incluído o apostolado missionário nas suas actividades, abriu concurso para o provimento das diferentes igrejas de Angola. Os párocos serviam durante oito anos, eram colocados em freguesias do litoral e do sertão angolano e, cumulativamente, exerciam o ensino primário.

Em resultado deste concurso chegaram a Angola, em 1858, os primeiros oito párocos europeus para serem colocados nas paróquias do Bembe, S. José do Ambriz (cuja ocupação militar se havia confirmado, apenas, em Maio de 1855), Huíla e Cassange, nas freguesias de S. João Baptista de Gazengo, Santo Hilarião do Golungo Alto, Benguela e Pungo Andongo. No novo concelho de Malange foi colocado um cónego africano, de nome Necessidades, que ali veio a falecer em Junho seguinte.

No dia 14 de Abril de 1861, tomou posse da Diocese de Angola o Bispo D. Manuel de Santa Rita Barros, que desembarcou em Luanda, no dia 2 de Setembro, trazendo consigo párocos, cónegos, professores e 12 ordinandos, uns do Seminário Patriarcal e outros do Seminário de Cernache do Bonjardim, com destino à frequência do Seminário Diocesano, que, nos princípios de Novembro, abriu no Edifício do Paço, antigo Colégio de Jesus. Em relatório apresentado pelo padre José Maria Antunes, em 1 de Dezembro de 1894, levado ao exame da Junta Geral das Missões, estas deviam distanciar entre si, em média um grau no sentido ocidente-oriente e dois graus no sentido norte-sul.

Havia, à época, ainda segundo Martins dos Santos, quatro centros de missões já solidamente estabelecidos: Malange e Caconda, desde 1890, Cassinga (1886), e Huíla (1881). Malange era a missão central e dali irradiaram os missionários para fundarem as missões do Libolo (1893), Mussuco (1900), Bângalas (1913), Cacuso (1925), Minungo (1929), Saurimo (1930), Mussolo (1937), Salazar (Ndalatando) (1937), Dembos (1938), Dundo (1940), Cazanga (1941), Lombe (1946), Chiengue (1950) e Quibala (1951).

De Caconda irradiaram para estabelecer as missões de Cachingues (1892), Bailundo (1894), Vila da Ponte (1894), Huambo (1910), Sambo (1912), Cúchi (1912), Galangue (1922), Mupa (1923), Ganda (1927), Omupanda (1928), Bimbe (1929), Quipeio (1933), Balombo (1933), Andulo (1933), Silva Porto (Cuito) (1934), Nova Lisboa (Huambo) (1935); Caála (1935), Nova Sintra (1936), Entre-Rios (1939), Cuamato (1940), Caiundo (1940), Vila Junqueiro (1940), Baixo Cubango (1940), Chinguar (1942), Canhe (1942), Mungo (1948), Bela Vista (1948), Bundas (1950) e Nharea (1950).

Da Huíla, as missões do Jau (1889), Chivinguiro (1892), Quihita (1894), Gambos (1897), Munhino (1898), Chipelongo (1902), Vimania (1902), Chiúlo (1916), Sá da Bandeira (Lubango) (1935) e Quilengues (1938). De Lândana, as missões de Cabinda (1891), Luáli (1890-1892), Lucula (1893), Lunuango (1902), Maiombe (1922), Santo António do Zaire (1930) e Ambrizete-Tomboco (1935).

Em 1901, destacavam-se os padres do Espírito Santo, que tinham a seu cargo, na então colónia de Angola, as missões seguintes: Lândana, Cabinda, Luáli, e Lucula, no distrito do Congo. Luanda e Libolo, no distrito de Luanda. Malange, Canâmboa e Mussuco, no distrito da Lunda. Caconda, Bailundo, Bié, Catoco, Cassinga e Massaca, no distrito de Benguela. Huíla, Munhino, Chivinguiro, Jau, Quihita, Gambos, Cubal e Cuanhama, no distrito de Moçâmedes.

O clero nativo

Afirma também Martins dos Santos, que as tentativas para remediar o défice de missionários com a ordenação de um maior número de sacerdotes africanos, acabaram por não corresponder às expectativas, uma vez que eram considerados incapazes de exercer a influência necessária junto dos seus compatriotas. “Estes viam-nos com certa desconfiança, considerando que fossem mandatários servis dos brancos, membros renegados e degenerados da sua raça ou da sua tribo”. Os europeus não aceitavam a orientação religiosa dos padres nativos, consequentemente, os seus ensinamentos eram menosprezados.

De facto, a preparação eclesiástica do clero nativo era deficiente, já que as aulas e os próprios cursos não funcionavam com regularidade, uma vez que não existia seminário. Chegou-se a acusar o bispo de ordenar padres que liam mal e compreendiam o latim litúrgico com dificuldade. Os sacerdotes africanos eram pura e simplesmente considerados analfabetos, o que os fazia sentir diminuídos face aos seus colegas europeus. Estes, por sua vez, não se mostravam razoáveis e compreensíveis. Bem pelo contrário, acentuavam mais as diferenças que os separavam dos sacerdotes africanos que sentiam ainda a dificuldade de se divorciar dos seus hábitos e costumes culturais, alguns deles, incompatíveis, na altura, com a forma de estar exigida pela Igreja Católica. Como Angola não possuía condições que permitissem a preparação intelectual e religiosa dos candidatos ao sacerdócio, procurou-se ultrapassar este obstáculo enviando jovens seminaristas para a Europa e Brasil.

O decreto de 23 de Julho de 1853 criou o Seminário Episcopal de Luanda com o fim de apoiar as dioceses de Angola e S. Tomé, servir de hospício aos missionários e suprir a falta de liceu e demais aulas públicas. Mas apenas no dia 29 de Junho de 1910, D. João Evangelista de Lima Vital conferia ordens de presbítero a dois alunos do seminário diocesano, ambos negros, os primeiros de um primeiro viveiro eclesiástico. Em 50 anos, apenas cinco padres tinham sido ordenados em Angola.

Acordo missionário

Em 7 de Maio de 1940 foi assinado na cidade do Vaticano, pelos plenipotenciários do Pontífice Pio XII e do Presidente da República Portuguesa, a Concordata, para a metrópole e, integrada nela, o Acordo Missionário, para o Ultramar. Este nos seus artigos 3º, 6º, 66º-69º e 81º fala de “indígenas”, “população indígena”, “pessoal indígena”. O artigo 66º estabelece que o “ensino especialmente destinado aos indígenas deverá ser inteiramente direccionado ao pessoal missionário e aos auxiliares”. Permite o uso da “língua indígena” somente no ensino da religião (Art.69º). A Concordata tolerava, de “harmonia com os princípios da Igreja”, o uso da “língua indígena” no ensino da religião católica (Art.16º). A mesma Concordata discriminava escolas para os indígenas e europeus (Art. 15º) e destacava a “evangelização dos indígenas” (Art.º 19). Mais tarde, a Lei do Indigenato entendia o uso dos “idiomas nativos” no ensino somente como instrumento de difusão da língua portuguesa: “O ensino a que se refere este artigo procurará sempre difundir a língua portuguesa, mas, como instrumento dele, poderá ser autorizado o emprego dos idiomas nativos». [LEI DO INDIGENATO, Decreto-Lei nº 39.666, suplemento ao Bº 22, 1ª série, de 31/05/1994, art. 6º, § 1].

Estes e outros factos tiveram influência na posição pró-independentista de uma parte do clero africano: o cónego Manuel das Neves e os padres Joaquim Pinto de Andrade, Martinho Samba Lino Alves de Guimarães e Domingos Gaspar, que foram presos pela PIDE. Igual destino teve o cónego Manuel Franklin da Costa e os padres Vicente José Rafael e Alexandre do Nascimento, que também foram nesse ano exilados para residirem em instituições religiosas na metrópole.
A prisão do cónego Manuel das Neves, no dia 21 de Março de 1961, deixou o Arcebispo de Luanda, D. Moisés Alves de Pinho, bastante preocupado: “Para os africanos, tudo o que não seja protestar contra a prisão de padres nativos e de numerosos leigos detidos pela PIDE, tudo o que não seja reconhecer-lhes direito à independência, e isso já, sem demora, desagradará. Quanto ao elemento europeu, por sua vez, desejará a afirmação sob o ponto de vista governamental, desejará a consagração da política de integração. Não o fazendo vamos passar por estar incondicionalmente ao lado dos africanos e contra o Governo.”
Os sacerdotes exilados entregaram ao Núncio Apostólico em Lisboa, em Outubro de 1963, uma missiva onde diziam o seguinte: “nós sabemos que a emancipação de Angola se há-de efectivar, cedo ou tarde, com ou sem a Igreja. Porém, ­perante este dilema, sem deixarmos de ser angolanos, o nosso sacerdócio não tolera a indiferença, tanto mais que a perspectiva “sem Igreja” facilmente se converte em “contra a Igreja”, quando em situações idênticas, a Igreja não se insere, no momento devido, mediante os seus cristãos nos “ventos da História”. Neste espírito de apostolado, sofremos a prisão, o exílio, as torturas físicas e morais, as incompreensões, o desprezo, as acusações tão falsas como ignóbeis, as difamações mais maquiavélicas, o abandono e as restrições nas próprias liberdades sacerdotais. E esta situação eterniza-se sem esperança de solução.”

O ensino público

Complementarmente aos 100 professores primários anualmente formados, eram, também, em cada ano, preparados 200 “monitores escolares”, que tinham como habilitações literárias apenas a 4ª classe. Em 1971, estes “formadores” correspondiam a mais de dois terços de todos os docentes existentes nas zonas rurais. Um pouco melhor preparados para a docência estavam os “professores de posto”, que também eram escassos para cobrirem as necessidades da instrução primária em Angola. Nesta conformidade, facilmente se reconfirma que, desde a implantação do ensino oficial em Angola, a 14 de Agosto de 1845, até ao início da luta armada em 1961, o ensino primário não estava dirigido às populações africanas, salvo para os que estivessem minimamente associados a uma matriz cultural urbana.

Durante o Governo de Transição, através do decreto de 25 de Junho de 1975, foram revistos os vencimentos do pessoal docente do ensino primário em Angola. Segundo Martins dos Santos, “(…) deu-se satisfação a velhas aspirações, aumentando o vencimento a auferir e subindo estes servidores públicos na escala do funcionalismo. A publicação deste diploma era a prova cabal de que, até então, se não tinha querido a sério resolver certos problemas, mantendo um sistema injusto e revoltante, que de algum modo contribuiu para o desprestígio e aviltamento da classe. Merecem ser fixados os nomes dos governantes que intervieram na elaboração do decreto e que o subscreveram: Johnny Pinnock Eduardo, primeiro vogal do Colégio Presidencial; Lopo Fortunato Ferreira do Nascimento, membro do Colégio Presidencial; José N’Dele, também membro do Colégio Presidencial; Jerónimo Elavoco Wanga, titular do Ministério da Educação e Cultura; Saidy Vieira Dias Mingas, do Ministério do Planeamento e Finanças; António da Silva Cardoso, Alto-Comissário de Portugal em Angola”.

(fim)

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16/09/2010

GRANDES DISCURSOS SOBRE EDUCAÇÃO

Filed under: Ensino, Politicamente Correcto — ABM @ 9:43 pm

Dois grandes discursos sobre educação:

PRIMEIRO DISCURSO

Barack Obama, presidente dos EUA, no início do ano escolar 2009-2010, no pavilhão de um liceu no Estado de Virgínia, repleto de gente, dirigindo-se a todos os estudantes norte-americanos, desde o 1º ao 12º ano.

Discurso: em inglês

Duração: 20 minutos

Abordagem: informal, sério

Audiência-alvo: alunos entre o 1º e 12º ano

Tema: A minha educação, o meu futuro

Frase-chave: o vosso futuro e o da América está nas vossas mãos

SEGUNDO DISCURSO

Isabel Alçada, ministra da Educação de Portugal,  encafuada sozinha Deus sabe onde, dirigindo-se aparentemente aos meninos e meninas que vão estudar pela primeira vez na vida, no início do ano escolar 2010-2011.

Discurso: em português

Duração: 5 minutos

Abordagem: estilo meio tia meio Miss Piggy amigalhaça misturado com sermão de Sto. António aos peixinhos

Audiência-alvo: alunos, professores e os pais dos alunos, mas acaba por ser um rol de conselhos dirigidos ao meninos e às meninas

Tema: estudem e obedeçam ao que vos mandarem fazer

Frase-chave: estudar é uma espécie de desporto do cérebro

16/01/2010

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

10/01/2010

THE BEST OF ISABELA FIGUEIREDO

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of The Delagoa Bay Review. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Delagoabaianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no Diário de Notícias sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pretos pequeninos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá e, no meu microcosmo, o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura fascista e colonial passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente, destaco, se se estiver a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Montes. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até bem pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique. Foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci e pelos vistos ainda bem. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse então novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente o delírio de que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

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