THE DELAGOA BAY REVIEW

16/09/2011

SOBRE O SAUDOSISMO: A SAUDADE

O África atraca no Cais Gorjão em Lourenço Marques, princípio do Século XX..

Anónimos que me parecem brasileiros compilaram na Wikipédia a seguinte discorrência sobre o termo “saudade”. O texto estava um tanto indigesto por isso dei-lhe um retoque mínimo. Aqui vai.

SAUDADE

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, “saudade”, só conhecida em galego e português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor.

A palavra vem do latim “solitas, solitatis” (solidão), na forma arcaica de “soedade, soidade e suidade” e sob influência de “saúde” e “saudar”.

Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil colonial esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Provém do latim “solitáte”, solidão.

Uma visão mais especifista aponta que o termo saudade advém de solitude e saudar, onde quem sofre é o que fica a esperar o retorno de quem partiu, e não o indivíduo que se foi, o qual nutriria nostalgia.

A gênese do vocábulo está directamente ligada à tradição marítima lusitana.

A origem etimológica das formas atuais “solidão”, mais corrente e “solitude”, forma poética, é o latim “solitudine” declinação de “solitudo, solitudinis”, qualidade de “solus”. Já os vocábulos “saúde, saudar, saudação, salutar, saludar” proveem da família “salute, salutatione, salutare”, por vezes, dependendo do contexto, sinónimos de “salvar, salva, salvação” oriundos de “salvare, salvatione”.

O que houve na formação do termo “saudade” foi uma interfluência entre a força do estado de estar só, sentir-se solitário, oriundo de “solitarius” que por sua vez advém de “solitas, solitatis”, possuidora da forma declinada “solitate” e suas variações luso-arcaicas como suidade e a associação com o acto de receber e acalentar este sentimento, traduzidas com os termos oriundos de “salute e salutare”, que na transição do latim para o português sofrem o fenômeno chamado síncope, onde perde-se a letra interna l, simplesmente abandonada enquanto o t não desaparece, mas passa a ser sonorizado como um d. E no caso das formas verbais existe a apócope do e final.

O termo saudade acabou por gerar derivados como a qualidade “saudosismo” e seu adjetivo “saudosista”, apegado à ideias, usos, costumes passados, ou até mesmo aos princípios de um regime decaído, e o termo adjetivo de forte carga semântica emocional “saudoso”, que é aquele que produz saudades, podendo ser utilizado para entes falecidos ou até mesmo substantivos abstratos como em “os saudosos tempos da mocidade”, ou ainda, não referente ao produtor, mas aquele que as sente, que dá mostras de saudades.

Recentemente, uma pesquisa entre tradutores britânicos apontou a palavra “saudade” como a sétima palavra de mais difícil tradução.

Pode-se sentir saudade de muita coisa:
de alguém falecido.
de alguém que amamos e está longe ou ausente.
de um amigo querido.
de alguém ou algo que não vemos há imenso tempo.
de alguém que não conversamos há muito tempo.
de sítios (lugares).
de comida.
de situações.
de um amor
do tempo que passou…

A expressão “matar a saudade” (ou “matar saudades”) é usada para designar o desaparecimento (mesmo temporário) desse sentimento. É possível “matar a saudade”, e. g., relembrando, vendo fotos ou vídeos antigos, conversando sobre o assunto, reencontrando a pessoa que estava longe etc. “Mandar saudades”, por exemplo no sul de Portugal, significa o mesmo que mandar cumprimentos.

A saudade pode gerar sentimento de angústia, nostalgia e tristeza, e quando “matamos a saudade” geralmente sentimos alegria.

Em Portugal, o Fado, oriundo do latim “fatum”, destino, está directamente associado com este sentimento. Do mesmo modo, a sodade cabo-verdiana está intimamente ligada ao género musical da morna. No Brasil, esse sentimento está muito retratado no samba de fossa e na bossa nova.

Em galego, além do termo saudade, existe o próximo “morrinha”, que em português é associado à doença animal.

(fim)

07/02/2011

CARLOS MENDES, O ARQUITECTO DO BAZAR DE LOURENÇO MARQUES

Do sítio ProF. 2000, com vénia, retirei o texto em seguida, creio que da autoria do Sr. Carlos Albino:

Carlos Mendes, que concebeu o actual Bazar de Maputo, inaugurado em 1903.

De seu nome completo Carlos Augusto José Mendes, nasceu perto da cidade de Aveiro a 13 de Agosto de 1869, no Cojo, filho de um empregado da Alfândega e de uma padeira. Era gente muito pobre.

Apesar de inúmeras dificuldades materiais, o seu enorme talento artístico impeliu-o a matricular-se na Academia Portuense de Belas Artes, em Arquitectura Civil, em 21 de Outubro de 1889.

O Bazar de LM, pouco depois de inaugurado. Que eu saiba, foi a única obra de Carlos Mendes em África.

Aí frequentou também Escultura, Desenho Histórico e Pintura, tendo sido companheiro de estudos dos que viriam a ser os tão conhecidos aveirenses, arquitecto Jaime Inácio dos Santos e escultor José Maia Romão Júnior.

A grande pintora portuguesa Aurélia de Sousa foi sua contemporânea na Academia.

Carlos Mendes foi primeiro 2° prémio do concurso “Soares dos Reis”, com um projecto de “invenção de arquitectura civil”.

Nos arquivos da Academia Portuense de Belas Artes há notícia de Carlos Mendes, como aluno, ate 31 de Agosto de 1894 [tinha 25 anos].

Em 1908 [38 anos] , publicou um anúncio no jornal aveirense “Democrata”, oferecendo-se como professor de desenho e pintura e projectista de arquitectura.

Outro aspecto do Bazar. Construído sobre terrenos onde antes havia uma praia, o trabalho de aterro aqui nunca foi adequadamente feito, por não ter sido nivelado com a "ilha" em frente. O resultado é que sempre que chove copiosamente, a zona inunda.

Foi o primeiro Comandante dos Bombeiros Novos de Aveiro, de 1 de Dezembro de 1909 até Outubro de 1913.

O primeiro quartel [dos Bombeiros de Aveiro], feito de raiz, de sua autoria, começou a ser construído em 1920.

O desenho do auto de posse da Primeira Comissão Municipal Administrativa Republicana é de sua autoria.

Carlos Mendes foi chefe da repartição das Obras Municipais da Câmara de Aveiro, merecendo, conforme registos em actas camarárias, desde a mais violenta censura até ao mais rasgado elogio, como funcionário, como arquitecto e como cidadão.

Outro aspecto do Bazar de LM.

Tentou a sua sorte nas Colónias e deixou em Lourenço Marques, hoje Maputo, talvez a sua obra arquitectónica mais impressiva: o Mercado Municipal desta cidade moçambicana é de sua autoria, constituindo visita obrigatória para os estudantes de arquitectura da África do Sul.

Veio a morrer em Aveiro, aos 25 de Maio de 1922 [com 52 anos de idade].

Mais uma imagem da fachada frontal do complexo, que dá para a actual Avenida 25 de Setembro em Maputo.

A parte de trás do Bazar tinha uma zona aberta ao céu, chamada pelos vistos o "bazar nativo", que desde a abertura teve um grande sucesso. E pelos vistos era já destino turístico.

Mais uma imagem da parte de trás do Bazar, em dia de muito negócio.

Uma vista aérea da zona do Bazar nos anos 60. Com a destruição do Café Olímpia e a construção do mastodonte onde hoje se situa a sede do Millennium BIM, a zona começou a descaracterizar-se.

A actual fachada. Durante o mandato de Eneas Comiche, já neste século, a cidade mandou arrancar o símbolo original e colocar o nome e selo actual da cidade. O efeito estético é este.

O enquadramento actual do Bazar. Apesar de tudo, continua a ser um dos principais monumentos de arquitectura pública da cidade. Consta que vai ser restaurado. Carlos Mendes agradece.

08/10/2010

DEUS, O NEGÓCIO E O PECADO NA RUA ARAÚJO EM LOURENÇO MARQUES

A Rua Araújo em dia de sol, anos 1890

por ABM (8 de Outubro de 2010)

Quis divertir-me um pouco hoje.

Vamos lá.

AGRADECIMENTOS

Esta nota é dedicada ao Nuno Quadros, que involuntariamente foi o seu agent provocateur ao mandar-me uma mensagem a dizer que S.Exa. o Aga Khan tinha inaugurado um dos casinos que operaram na Rua Araújo (acho que não, Nuno) e à Sra D. Suzette Malosso que, na plenitude dos seus 82 anos de idade, tendo crescido na cidade aqui focada, lembra-se de coisas que eu não sabia sequer terem existido e que teve a pachorra de aturar os meus interrogatórios.

INTRODUÇÃO

Creio -dizem-me- que uma das expressões enfáticas e mais badaladas da protagonizada ética limpa do então novo regime que se instalou em Moçambique com a retirada da administração portuguesa da governação do país em 1975, foi, literalmente, o encerramento dos estabelecimentos na Rua do Bagamoyo em Maputo (então Rua Araújo em LM, terminologia que se usa doravante, pois o relato situa-se nessa era) e a proibição da sua vida boémia, tida como imoral, decadente, capitalista e exploradora, entre outras coisas, dos corpos e vulnerabilidades das mulheres moçambicanas.

A agenda dos líderes guerrilheiros da Frelimo recentemente chegados à capital, aparentemente horrorizados com os seus decadentes hábitos e costumes, foi, claramente, de dar um sinal das coisas para vir e da Nova Ordem, congeminada lá no meio do mato, em Nachingwea. Aquilo que viam em Lourenço Marques era o colonialismo. e o colonialismo acabara. A prole, emocionada, estúpida e oportunista, aplaudiu logo o gesto de eliminação da prostituição e da vida boémia – e já agora de tudo o resto mais que viesse à cabeça dos Libertadores.

Libertadores para quem, mais do que a Independência, que já era obra, consideravam a Revolução para Criar o Novo Homem Moçambicano o objectivo mais sério, e para quem o exemplo predilecto da pura vivência revolucionária – um pouco como Eça ironiza quando em A Cidade e as Serras “obriga” um rico parisiense a gostar de viver na parca rispidez serrana portuguesa – era aquela vida porreiraça e espartana que tinham andado eles próprios a viver lá no mato no Norte.

A solução clara era simples: o povo genuíno vem do mato, a gente não controla bem as cidades, que estão cheias de colonos brancos que ainda por cima pensam que ainda mandam alguma coisa e que são um veneno e um empecilho à Revolução Moçambicana. Portanto vamos colocar esta gente toda na ordem, mostrar-lhes quem manda aqui e correr com o maior número possível deles, preferencialmente de forma a que o que eles pensam que é deles (mas que é nosso) fique atrás.  E acabar já com os reaccionários vícios deles.

Não demorou muito (basta perguntar a quem passou por esta altura e que especialmente é white ou quase) e as cadeias estavam cheias de gente que foi repetidamente presa durante dias e dias porque atravessou a rua na hora errada, porque não bateu uma continência que não sabia que tinha que fazer, que não parou o carro a tempo quando a banda lá no palácio se lembrou de tocar o novo hino, que se esqueceu do bilhete de identidade naquela noite em que foi ao cinema com os amigos.

E isto era só para os que não tinham feito nada.

Mas na altura a Rua Araújo foi muito mais falada porque era uma medida muito mais visível, mais colectiva e mais ostensiva. O simbolismo era inescapável, e deliberado.

As alegadas putas e os seus alegados proxenetas foram mandados para a reabilitação e a rua (o tal de Araújo que dava o nome à rua foi o primeiro Governador do Presídio de Lourenço Marques, nomeado em 1781) mudou mais uma vez de nome, desta vez para um dos locais sacros da Gloriosa Guerrilha lá longe na Tanzânia: Bagamoyo, a escola para a formação do Novo Homem Moçambicano, cortesia da Frente de Libertação de Moçambique e, durante algum tempo, de Janet Mondlane.

Mas que apropriado.

O encerramento (na altura rotulado como “limpeza”, referido numa edição de Abril de 1975 na outrora Pacatamente Burguesa mas agora Raivosamente Revolucionária revista Tempo – e em que Ricardo Rangel era sócio) coincidiu com a Independência, felizmente para Victor Crespo, o memorável almirante e o último (e único) Alto Comissário em Moçambique, que representou o novo regime português pós-golpe de Estado em 1974 antes de formalizar a entrega do poder aos líderes da guerrilha na data por eles escolhida. Pois refere quem viu,  que o Almirante passava mais tempo no Dancing Aquário na Rua Araújo a beber whiskies e a discutir as colorações epidérmicas das senhoras que lá dançavam, que no seu escritório a fingir que presidia às formalidades da governação e que defendia os interesses do seu país (em boa verdade, parece que na altura ninguém sabia quais eram esses interesses e mesmo assim por essa altura a Frelimo estava-se a marimbar para o que quer que fosse que ele dissesse, que mesmo assim foi nada).

E esse acto apenas foi um começo. No início de Novembro de 1975, numa operação de grande envergadura e que durou dois dias e incluiu três cidades, as forças da Frelimo, de AK47s em riste apontadas contra uma população urbana basicamente inocente e completamente indefesa, pura e simplesmente prenderam cerca de três mil pessoas, que consideraram suspeitas de estarem envolvidas com drogas, prostituição, roubo ou vadiagem. Pois.

Era o legalismo revolucionário, conferido e legitimado pelo Povo.

Na altura da Indepedência eu não soube de nada destas tricas da Frelimo com a Rua Araújo nem do terror dirigido aos “colonos” (ou será que era payback time?), pois estava mais ou menos tranquilamente a estudar a oito mil quilómetros de distância, em Coimbra, onde o mais que havia de aguerrido eram os desenhos dos gigantescos seios das caricaturas do José Vilhena. Um pouco como em Moçambique, a pornografia via-se era na vida política, todos os dias, nos noticiários politizados da Érretêpê.

Dez anos depois de eu ter deixado de residir em Maputo e nove anos depois da Independência, em plena era do Repolho e do Carapau, visitei a cidade, que me pareceu deserta, abandonada e parada no tempo, as pessoas com terror sequer de pensar alto, com medo de lhes ser apontado o dedo por alguém ligado à Nomenclatura. Mas não se sentia qualquer fervor revolucionário. Apenas cansaço, conformidade e um perpétuo esforço de meter alguma coisa no prato. Pois não havia quase nada. Mas ainda assim foi-me discretamente servida uma lista das Grandes Mudanças (para além da de praticamente toda a gente que eu conhecia não estar lá, claro). E o desmantelamento da Rua Araújo estava nos top dez, o que eu achava curioso, até estranho, pois apercebi-me que isso indiciava o simbolismo, na cabeça de muita gente, que aquilo acarretava, antes e depois da Independência.

Se bem que antes da Independência aquilo não era de forma alguma “a” referência nem tinha o relevo que se possa querer dar-lhe. Era apenas mais um dos locais exóticos, quiçá um pouco mais sórdido, da cidade. Eu hoje tenho 50 anos de idade, e nos passeios a pé higiénicos da família BM aos sábados à noite depois do ocasional jantar chinês no Restaurante Hong Kong, lá pelos fins dos anos 60, princípios dos anos 70, devia eu ter uns dez anos de idade, lembro-me muito vagamente do que aquilo parecia, pelo menos a parte da Rua Araújo para quem vem da Praça onde fica a estação dos Caminhos de Ferro: que tinha muitos bares porta sim porta sim, muita gente, muita música aos berros, montanhas de luzes e coloridos anúncios de néon a acender e a apagar, à porta de uns bares e dancings umas fotografias dumas meninas de coro (brancas) muito pintadas com umas coisinhas penduradas nas pontas das maminhas expostas e um ambiente mais ou menos aguerrido.

Nos dias que correm, isto é troco para bebés.

A Rua Araújo nos anos 60, de dia. À noite parecia Las Vegas junto do Índico.

Uns anos depois, a primeira referência que eu vi sobre a antiga Rua Araújo foi na forma de umas fotografias que o saudoso e agora exaltado Ricardo Rangel (que se dava muito bem com o meu pai) publicou e que tirou nessa altura, e que correspondem vagamente ao que eu vira e mais ou menos imaginava ser a Rua Araújo, claro que sem aquela carga ideológica-sociológica-pós-colonial que se sente agora, e que, despida de contexto, dava uma aura quase lunática àquele fenómeno da velha Lourenço Marques.

Casal fotografado por Rangel na Rua Araújo - o sórdido passou a ser arte

Uns anos mais tarde, já no fim dos anos 90, quando a Nomenclatura freliminana  relaxou involuntariamente os costumes públicos e, sem qualquer veio condutor, a capital moçambicana descambou quase completamente para um free for all em termos dos seus hábitos mais prúridos. Alguns decerto se lembram das legiões de jovens serpentes nas esquinas do Polana e da Sommerschield (a baixa era uma cidade fantasma à noite) depois da hora do jantar e todos os passeios em redor da discoteca do Sheik completamente tomada pelos possantes 4×4 da nova classe de “empresários de sucesso” e suas sumptuosas, esculturais acompanhantes.

(Elas eram chamadas serpentes porque quando a gente passava por elas no carro elas faziam assim: “pssssssssssst, psssssssst”)

Houve então muito boa gente na cidade que pensou, e disse, que se calhar fazia mais sentido trazer de volta a velha Rua Araújo e meter isso tudo ali. Mas as coisas não são assim tão fáceis de fazer. Hoje em dia, não estou lá muito dentro dos detalhes do negócio do prazer e do entretenimento maputiano, mas acredito que ainda há muito, muito por fazer.

A verdade sobre a Rua Araújo é muito mais profunda.

E, na minha opinião, se calhar não há rua que mais e melhor espelhe a História desta cidade que hoje é Maputo.

De facto, houve uma lógica muito clara no aparecimento do negócio por que a Rua Araújo se tornou quase mítica. Para a entender, tem que se recuar até ao fim do século XIX e entender o que se passava na região.

Se o exmo Leitor tiver a paciência, acompanhe-me nesta aventura.

A CIDADE APARECE

Apesar da apetência britânica pela baía defronte de Maputo, sucessivamente combatida pelos portugueses com a ajuda do Duque de Magenta (hoje mais conhecido como 2M), o flanco sul da então frágil, precária, indefinida colónia portuguesa, estava praticamente abandonado aos seus habitantes, que faziam mais ou menos o que sempre fizeram, os portugueses tendo o ocasional problema com os ingleses, que se alternavam com os Boers a tomar conta do que é hoje a Suazilândia, e os boers do Transvaal, que também gostariam de ficar com a parte Sul do actual Moçambique.

O momento verdadeiramente fundacional para a cidade – e de tal forma que em meros vinte anos o epicentro de todo o Moçambique se deslocou dois mil quilómetros do eixo Ilha de Moçambique-Nampula para a Baía de Lourenço Marques, ao ponto de a elegante e centenária capital ter sido descartada para os pântanos em redor da Ponta Vermelha – foi o conhecimento pelo mundo da descoberta de ouro no Rand, uns campos situados a Norte da pacatíssima capital boer do Transvaal (nome formal: República Meridional Sul-Africana), Pretória.

Tirando as negociatas do Albasini, pouco fluía entre o interior e a costa.

A "cidade" original não era uma cidade: era uma ilha. A uma distância regulamentar do Presídio, fez-se um aldeamento precário. Na parte baixa desse aldeamento vê-se a Rua dos Mercadores - a original rua de Maputo - mais tarde a Rua Araújo

Assim, quase subitamente, em 1874, na pequena língua de terra situada a Poente de onde Joaquim Araújo se lembrou de mandar edificar o lastimável Presídio de Lourenço Marques, centenas de pesquisadores e aventureiros americanos e australianos ali desembarcaram ao mesmo tempo para se dirigirem para o interior, enquanto que, do Transvaal, centenas de boers faziam a caminhada no sentido contrário, para vir buscar mercadorias e mantimentos aos navios. Nesse ambiente de “fronteira” completamente desregulado, de negócios, bebida e prazer, logo se esboçou um – o primeiro- o primeiro de todos – arruamento onde essas actividades se desenvolveram:

A Rua Araújo.

Que na altura, à boa antiga portuguesa, não tinha nome de gente, mas um nome que traduzia a sua utilidade: o de Rua dos Mercadores. Era um assentamento precário, com casas feitas de madeira, suficientemente sólidas para se poder lá dentro guardar, comprar e vender tudo e em que o português era provavelmente a terceira ou quarta língua mais falada.

Um ano depois, ao fim da tarde do dia 12 de Setembro de 1875, um violento incêndio consumiu tudo o que havia entre a actual estação dos caminhos de ferro e a sede o Banco de Moçambique (dantes o BNU). Para evitar situações semelhantes,o então governador português, um tal de Augusto Castilho, mandou que as casas passassem a ser feitas com materiais mais duráveis: argamassa, tijolo, adobo, telha, zinco. E logo a seguir veio o Major Joaquim José Machado e a sua equipa, que esboçou o plano director do actual centro da cidade. São essas as casas que os postais mais antigos de Lourenço Marques hoje mostram.

A Travessa da Palmeira (hoje fica entre a sede do BIM e a Nova Mesquita). Após o incêndio de 1875, as casas passaram a ser feitas de alvernaria, tijolo e telha.

Com as notícias da descoberta de ouro em Magaliesberg e em Barbeton, a pressão de ligar a Baía ao interior sul-africano britânico e boer foi quase insustentável. Logo se abriu a que ficou conhecida como a Estrada de Lindenbugo (que começava no fim da actual Av. 24 de Julho, a seguir a um enorme quartel que acho que ainda lá está). Lindenburgo (se é que ainda tem esse nome) fica situada a meio caminho entre Maputo e Pretória. Naquela altura Nelspruit (Mmmmmbombélááá!) basicamente não existia e seria assim até o comboio passar por lá anos mais tarde.

As coisas encaminhavam-se, perante o ar atónito dos Rongas, que ali viviam em redor, e que assistiam certamente preocupados com o reboliço enquanto que por sua vez iam fazendo as suas negociatas e de vez em quando umas razias para saquear.

A Rua Araújo, quando em Lourenço Marques se vivia um ambiente de fronteira

Mais um aspecto da Rua Araújo no fim do séc. XIX

Os momentos-chave seguintes foram a inauguração da linha de caminho de ferro para Pretória (1895), logo a seguir a abertura do porto marítimo da cidade, culminando com o desencadear da Guerra Anglo-Boer (1899-1902), um complicado imbróglio militar e político, que trouxeram muita, muita gente à cidade e montanhas de negócio. Nessa altura, Lourenço Marques (ou a sua designação inglesa, Delagoa Bay) estava nas primeiras páginas dos grandes jornais de todo o mundo, a Baía bloqueada pela poderosa marinha britânica (foi ali usado pela primeira vez no mundo o telégrafo sem fios para a coordenação de operações militares-navais. Enfim, vale o que vale).

A linha de caminho de ferro abriu em 1895. O edifício da estação chegou mais do que dez anos depois. Directamente em frente, ficava a Rua Araújo, e à direita o porto marítimo.

E o que é que, fisicamente, estava precisamente no meio disto tudo?

A Rua Araújo.

De facto, a Era de Ouro da Rua Araújo não foi nos anos 50, 60 e até 1975.

Pelo contrário, foi nas quatro décadas anteriores.

OS DIAS DE OURO

Capa dum folheto publicitário em inglês, sobre Lourenço Marques, anos 20.

Estabilizada a guerra e colonizado o Transvaal pela Grã-Bretanha (cujo consulado em LM, desde que abriu sempre esteve no mesmo local onde hoje se encontra a actual embaixada em Maputo), o negócio aumentou sempre e cada vez mais, tendo Lourenço Marques, que entretanto foi praticamente comprada e desenvolvida com capitais ingleses, sul-africanos e boers através de companhias, lá a partir dos anos 20, criado e desenvolvido um negócio novo, complementar, e extremamente rentável, para além do import/export e do álcóol: o negócio do lazer e do prazer para os brancos sul-africanos.

Dia de "São Navio" em Lourenço Marques. A cidade toda acorria ao Cais para assistir ao espectáculo, e cuscar quem chegava e quem partia. Era um evento. Depois ia tudo beber um copo para a Praça 7 de Março.

De facto, a cidade tinha várias valências nesse sentido. Para além de ser organizada, limpa, e bonita, tinha um clima aprazível, ficava junto ao mar, tinha acessibilidades (barco, comboio, estrada, telégrafo para o mundo exterior), boas instalações, boa comida, instalações desportivas e tinha o exotismo informal cultural luso-africano que nem se sonhava existir na África do Sul.

O antigo campo de golfe da Polana. Situava-se imeditamente a seguir ao actual Hotel Polana e estendia-se até à actual embaixada americana e entrava um pouco para dentro da actual Sommerschield.

A entrada do Pavilhão de Chá, junto à antiga praia da Polana e a 150 metros a Norte do actual Clube Naval de Maputo

O bar da Estação de caminho de ferro de Lourenço Marques estava ao nível do que de melhor havia no mundo na altura

Lourenço Marques, com as suas praias, o Pavilhão de Chá, os seus vários hóteis, quiosques, clubs e restaurantes, alegremente acolhia esse negócio, nos anos 20, 30 e princípios dos anos 40.

O cais da estação de caminho de ferro de Lourenço Marques

Nessa altura, para além dos navios, que traziam centenas de marujos, passageiros e homens de negócios à cidade, vinham diariamente comboios de Joanesburgo e de Pretória, cheios de carga e gente, na busca de repouso ou de prazer, ou para apanhar um barco para a Europa, ou regressar à África do Sul.

E, para além de bowling, golfe, a caça, a pesca e o ténis, Lourenço Marques tinha bebidas à descrição, jogo e prostituição, práticas estas proibidas e reprimidas pelos estóicos britânicos e ainda mais pelos puritanos boers. Em Lourenço Marques, para além de vinho, whisky, camarões e cerveja à descrição (incluindo aos domingos e feriados religiosos) até fados e touradas havia,  perante o espanto dos visitantes. E cinema, e excelente ópera italiana, esta no resplandecente Varietá, que ficava do outro extremo da Rua Araújo, junto à Praça Sete de Março (hoje 25 de Junho, o dia da Independência em 1975), a sala de estar da cidade – com chás e delicados bolos de pastelaria servidos às cinco horas da tarde, enquanto música tocada no seu coreto por bandas contratadas, quase todos os dias.

Antes do Polana abrir, o Carlton era o hotel de escolha em Lourenço Marques. Ficava situado a meio da Rua Araújo. Mesmo depois de abrir, durante muito tempo o Polana era considerado fora do caminho.

Cedo a cidade se tornou ponto de visita obrigatório para os milionários e as classes mais abastadas de Joanesburgo e de Pretória, que para ali se dirigiam em conforto exuberante no Blue Train, um comboio de luxo que parava semanalmente na estação de Lourenço Marques.

Que ficava a cem metros da Rua Araújo.

Para além dos navios de passageiros que atracavam todas as semanas no porto, mesmo ao lado.

As touradas e as pegadas de touros eram uma atracção turística única em África.

A meio da Rua Araújo, do lado direito, cedo abriu o Casino Belo, mais exclusivo, e mais abaixo o Casino Costa, os únicos casinos no Sul de África. O Casino Belo (no edifício mais tarde funcionou o conhecido Dancing Aquário, para quem se lembra) era uma luxuosa máquina de fazer dinheiro. Estava aberto toda a noite, sete dias por semana. Tinha uma grande orquestra (o chefe de orquestra do Casino Belo durante dez anos chamava-se Jorge Vara e era o pai da D. Suzette, por isso é que eu sei isto tudo) tocava diariamente, sete dias por semana, das 9 da noite até às 4 da manhã, com um intervalo de meia-hora.

Aspecto da sala de jogo do Casino Belo na Rua Araújo, em Lourenço Marques. Lá dentro, era obrigatório o uso de fato ou smoking e vestido comprido para as senhoras.

Ali encontravam-se as famosas e as originais Taxi Girls de Lourenço Marques(não são as que mais tarde se chamavam pelo mesmo nome, e que basicamente eram prostitutas). Estas eram jovens sul-africanas desesperadamente belas, vestidas de rigor com vestidos compridos, todas as noites, e como referi não eram prostitutas (o que não significa que não dessem uma volta com quem lhes apetecesse). O que elas faziam era que à noite conversavam com os clientes, entretiam-nos e bebiam um copito ou outro. E qualquer homem podia comprar uma “fita” de bilhetes por dois e quinhentos cada bilhete, e por cada bilhete a menina dançaria com ele uma música. No fim quase todas elas acabaram por casar com portugueses de sucesso na cidade e hoje fazem parte do DNA dos descendentes de quem lá viveu (imagino que estrategicamente omitindo os detalhes da sua procedência).

Curiosamente, naquela altura as crianças podiam entrar no Casino, que tinha também umas limousines com motoristas fardados para levarem os clientes e seus convidados para os hotéis ou de volta para o Blue Train.

O Varietá, na altura creio que a segunda Casa de Ópera em toda a África excepto o Cairo, situado na Rua Araújo, no local onde hoje se situam o Cinema Matchedge e o Estúdio 222.

Nesses tempos, ganharam-se e perderam-se verdadeiras fortunas nos casinos da Rua Araújo. Após uns dias de loucura na roleta e no bacharat, muitos dos visitantes mal tinham dinheiro para pagar o bilhete de comboio de volta para Joanesburgo e Pretória e houve um número considerável de suicídios, cometidos por gente que perdeu tudo o que tinha nas mesas de jogo.

Na Rua Araújo, o negócio da noite não era só para os ricos. Era socialmente vertical. Os bares, cabarets e salas de jogo da Rua anualmente atendiam milhares e milhares de marinheiros, viajantes, homens de negócios, etc, trazidos pelo movimento louco no porto e no caminho de ferro.

Curiosamente, quase todo o negócio era entre brancos – incluindo, malgré as suspeitas da Frelimo, a prostituição. Mas do lado esquerdo da Rua Araújo, houve mais tarde uma casa amarela, o Bar Pinguim, que era o único sítio na Rua Araújo onde havia, para além de prostitutas brancas, prostitutas negras e mulatas e cujo ambiente era puro caos estilo filmes do Texas. Nos anos 50 era um hangout favorito de, entre outros, o poeta Reinaldo Ferreira.

Durante esses anos, a autoridade policial, especializada e presente, mantinha a ordem, num misto de negligência latina e pauladas vigorosas. Alguns se recordarão dum agente de polícia alto e encorpado que vigiava a Rua Araújo, e que era legendário por resolver problemas de rua com uma saraivada de cacetadas, o que supostamente funcionava bem junto dos marujos e dos tropas mais alcoolizados.

Convenientemente situadas perto da Rua Araújo, havia grandes casas de prostituição, negócios legais, de porta aberta. As prostitutas eram praticamente todas brancas, a maioria francesas e sul-africanas. Refiro por exemplo uma luxuosa mansão que existia na rua a seguir à antiga Paiva Manso (não faço ideia qual é o nome da rua hoje) e que era a maior e considerada a melhor, gerida por uma senhora que era conhecida na cidade pela sua generosidade e que tinha vários filhos que se formaram todos na África do Sul.

Belo, proprietário do principal casino, era uma figura conhecida na cidade, riquíssimo, generoso, respeitado. O primeiro frigorífico eléctrico doméstico que houve em Moçambique foi ele que o instalou em sua casa. Teve três filhos, um deles o Ernesto, outro que foi gerente da Casa Coimbra (aquele prédio mesmo ao lado esquerdo do Banco de Moçambique na 25 de Setembro em Maputo) e um terceiro sobre o qual nada sei.

O FIM DE UMA ERA

O fim desta Era Dourada da Rua Araújo começou quando, lá muito longe, do outro lado do mundo, em Lisboa, o ditador Oliveira Salazar, tentando perpetuamente fintar os jogos de cadeira locais com as diferentes facções sociais (são sempre as mesmas: radicais vs católicos vs maçónicos vs monárquicos, a treta do costume), com a intervenção do seu antigo amigo e antigo colega de carteira, Manuel Gonçalves Cerejeira, então Cardeal de Lisboa e representante da Igreja Católica Apostólica Romana em Portugal, celebrou em 1940 (ano em que se celebrou também o tricentenário da reaquisição da independência portuguesa das mãos dos Hespanholes) um entendimento formal entre o Estado português e o Vaticano, a que se chamou Concordata.

Através desse documento, para todos os efeitos, a Igreja Católica encerrou um trágico capítulo aberto com o advento da I república e assumiu uma parceria com o Estado português que teve assinaláveis ramificações por todo o Império.

Em Lisboa, os três amigos: o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, e o seu Presidente, Óscar Carmona. Dos três, só Salazar nunca meteu os pés em Moçambique.

Talvez não seja coincidência que nessa altura, se começou a construir a actual Catedral de Maputo, que foi concluída em 1944, recorrendo os poderes locais para a sua construção essencialmente a trabalho escravo nativo, o que enfim, é mais uma pequena vergonha e uma expressão do tal colonialismo no seu pior (alguém devia meter lá uma placa na parede para que se soubesse e se lembrasse essa vergonha).

A expressão da Trilogia do Poder Imperial no centro de Lourenço Marques: o Estado (a Câmara Municipal), a Igreja (a Catedral) e o vulto de Mousinho. Em 75, Samora despachou Mousinho para um canto da "fortaleza" antes de rebaptizar o local de Praça Mousinho de Albuquerque para Praça da Independência. E de meter uma gigantesca fotografia sua na fachada. Mousinho out, Samora in.

Em Agosto de 1944, já a II Guerra Mundial estava a começar a chegar ao seu término, num navio Serpa Pinto obscenamente artilhado para acolher Sua Católica Eminência, o Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, viaja para Moçambique e desembarca em Lourenço Marques para inaugurar com imperial pompa a nova catedral, que ficou situada mesmo ao lado do também novo e imponente edifício da Câmara Municipal de Lourenço Marques, talvez para simbolizar a nova parceria entre o Estado e a Igreja – algo que acontecia pela primeira vez em Moçambique, cujo pluralismo religioso era palpável.

O quarto de cama de Gonçalves Cerejeira no Serpa Pinto

A sala de jantar do Cardeal Cerejeira no Serpa Pinto

O Serpa Pinto até tinha uma espécie de "sala do trono" para o Cardeal Cerejeira. Isto hoje dava um filme.

Pouco depois, a prostituição e os jogos de casino foram ilegalizados e desmantelados em Lourenço Marques.

Na Rua Araújo, ficaram os bares, os dancings e o ocasional jogo ilegal. A prostituição passou para a clandestinidade.

O RESSURGIMENTO

Mas a Rua Araújo não morreu.

Pouco depois, no início dos anos 60, com a instauração do apartheid do Sr. Verwoerd na África do Sul e a preparação e o início do que veio a ser a guerra pela Independência, Lourenço Marques conheceu um período de enorme movimento de pessoas, de investimento e de crescimento. Muitos portugueses vieram viver e trabalhar para a cidade, o número de visitantes da África do Sul, que agora viajavam em carros particulares, cresceu significativamente, e os navios começaram a chegar da Metrópole cheios de jovens militares sózinhos, muitos desejosos de fazer uma escalada na Rua Araújo para beber uns copitos e talvez experimentar o deslumbre de uma experiênciazinha sexual, para depois se ocuparem da defesa do território. E o movimento de navios, aviões e comboios cresceu quase exponencialmente. A cidade fervilhava.

O mito das LM Prawns: acima, o Restaurante da Costa do Sol, nas mãos da família luso-greco-moçambicana Petrakakis desde 1938.

Os usos e os costumes entretanto liberalizaram-se, muito mais em Moçambique do que era a norma quer na Metrópole portuguesa, quer no ambiente severo de Calvinismo puritano imposto na África do Sul – apesar de, nas praias e nos cafés de Lourenço Marques, serem as bifas que deixavam os locais de boca aberta, as meninas locais manietadas pelos velhos costumes dos seus pais portugueses.

Ainda que com a Pide a mordiscar, o Regime nervoso e a guerra dois mil quilómetros ao Norte a desenvolver-se, o ambiente na cidade tornou-se muito mais sofisticado e multiracial, começaram a aparecer galerias de arte, surge toda uma geração de pintores e escultores portugueses e moçambicanos, brancos e negros e com temas africanos, lojas de moda, a Sociedade de Estudos, a Casa Amarela, os bikinis, a mini-saia, veio a revolução musical com o rock, vomitado 24 horas por dia, sete dias por semana pela LM Radio, a Estação 2 do Rádio Clube que era de longe a mais popular em todo o Sul de África. Do Rádio Clube veio também a  marrabenta e inaugurou-se também a primeira estação de FM stereo, com jazz e música clássica, em todo o território português.

Em termos de desporto, tudo havia e tudo se fazia tudo na cidade. Campos de futebol de básquet, piscinas, golfe, mini-golfe, hóquei, equitação, aviação, tiro, regatas, pesca, pesca submarina. Era uma obsessão. Em entre 50 e 60 surgem estrelas como Coluna, Velasco, Matateu, Eusébio, Lage, Mário Albuquerque, Fernando Adrião, Dulce Gouveia, Mussá Tembe e tantos outros. A lista não acaba.

Nos anos 60, o pai BM, à esquerda, treinava equipas de futebol em Lourenço Marques.

Por sua parte, a Rua Araújo acompanhava todo este ambiente à sua maneira, com mulheres, marijuana, misturada com cerveja, vinho, shows de striptease (alguém se lembra da famosa travesti Belinda?) e com verdadeiras sessões de pancadaria que inevitavelmente envolviam comandos, fuzileiros e a polícia de choque a correr atrás deles com cacetetes. Segundo o Eduardo Pitta, até havia um discreto underground gay e lésbico na Rua Araújo que a Maluda vagamente confirma. O Carlos Gil esteve lá nos seus tempos de teenager e no seu livro Xicuembo deu uns lamirés da fauna louca que aquilo era.

Como em toda a parte, dizem-me que havia prostituição para todas as cores, todos os gostos e todas as bolsas. Mas se calhar a Rua Araújo não era o ponto principal dessa actividade. quando muito era um ponto de começo.

O Hotel Central e o Dancing Aquário, um conhecido empório da Rua Araújo e ponto de paragem de Vítor Crespo.

Foi esta Rua Araújo que Ricardo Rangel conheceu e retratou nos anos 60. E que, em meados dos anos 70, ajudou a destruir na sua revista.

De certa maneira, para a velha rua, esse foi apenas mais um momento da sua vida.

Uma nova metamorfose do que fora.

Viva a futura amizade entre os povos da CPLP !

E com o tempo, essa imagem do que fora nos anos 60 e 70, congelou-se e tornou-se num cliché, e pior, no todo, excluindo os quase cem anos que o precederam. Até Licínio de Azevedo recorreu agora a ele para o seu recente filme “Margarida”.

O tal símbolismo que eu acho que, isoladamente, não teve.

EPÍLOGO

Hoje, a Rua Araújo – a Rua do Bagamoyo – sobrevive precariamente, um dinossauro da história da Cidade, o seu berço irreconhecido, maltratado, desrespeitado, ignorado pelos cidadãos da Cidade, aguardando por melhores dias, quando eventualmente haja outro ressurgimento da Baixa da Cidade e uma outra apreciação do seu rico passado.

Que forma terá esse ressurgimento, ninguém sabe.

Uf. Depois disto, vou jantar ao chinês ali na esquina.

Bom fim de semana.

07/10/2010

SOBRE A FORTALEZA DE MAPUTO

Postal turístico da Fortaleza de Maputo, anos 60

por ABM (7 de Outubro de 2010)

No dia 4 de Abril de 2009, o nosso Grande Senador escreveu neste repositório de informação totalmente grátis que é o Maschamba, uma nota intitulada Vasco da Gama, em que, tendo estado na cidade de Inhambane, basicamente resmungava por ver uma estátua meio pirosa mas perfeitamente utilizável do conhecido navegador português que veio por ali abaixo e subiu por ali acima a caminho das Índias, espetada na parte de trás de um edifício municipal local. Na sua histórica viagem, em 1497 Gama parou para uma aguada e uns petiscos em Inhambane, onde terá sido bem tratado, e seguiu caminho para Norte, à procura dos tão falados negócios da Índia.

No dia 10 desse mês, às páginas tantas, eu, que ainda não tinha o nobre estatuto de estar deste lado da paliçada, depois de ler o texto Senatorial e de resmungar qualquer coisa sobre isso dos monumentos históricos portugueses (que agora, quer se goste ou não, são moçambicanos, pois estão no local e fazem parte da sua história), a propósito do tema, escrevi o seguinte:

O que queria realçar é o seguinte: a que hoje chamam Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição em Maputo é basicamente uma fraude, uma espécie de castelo da Disneylândia feita durante a II Guerra Mundial pelos então patrões da cidade para os turistas sul-africanos que vinham a LM fazer uns negócios e dar umas voltas no Casino Belo (que ficava na Praça Mac Mahon (ou lá como se chama hoje) em frente à estação dos CFM e ir à praia.

O local corresponde mais ou menos ao sítio onde houve de facto uma miseranda paliçada de paus e barro na ponta da língua de terra onde estava a “fortaleza”. Não é bem o mesmo que as fortificações de Moçambique, Sofala, Tete, etc, que sim, foram feitas nos tempos das rotas da Índia (de que LM nunca fez parte). Mas, pronto, tem um ar “vintage” colonial e, mais importante, tinha um átrio porreiro para se pôr o cavalo do Mousinho a olhar para a cara do António Enes.

Estes tiques das elites no poder são perfeitamente entendíveis. No tempo dos faróes egípcios, quando havia um que tinha sido por alguma razão percepcionado como um grandessíssimo cabrão, o que vinha a seguir mandava apagar das inscrições de pedra a sua cara, o seu nome e descrições dos seus feitos. Supostamente, era como se não tivesse existido nunca. Quatro mil anos depois, estes “black holes” eram perfeitamente identificados e reconstruídos. É uma chatice, esta mania de uns quererem os factos, e outros quererem os factos que querem, uma espécie de história feita por encomenda.

Felizmente, daqui a duzentos anos ninguém em Moçambique se vai lembrar deste episodiozito e antecipo que, sem dor nem remorso, os moçambicanos de então recordarão com a indiferença que o tempo causa, e aproveitarão o tal património que resta (sendo o único que se me afigura como inapagável a velha Lourenço Marques) para atrair turistas e contar estórias coloridas. Para suprema irritação de alguns dos presentes, na velha língua dos portugueses.

O nosso Senador, como é costume e usando da sua poderosa e abundante verve sociológica, discordou logo e despachou-me socraticamente: “discordo que [a fortaleza de Maputo]seja uma “fraude” no sentido de dar uma autenticidade genética aos monumentos.”

Hã?

Dado que ontem tive que andar a correr nos meus ficheiros à procura dos postais da velha câmara Municipal de Lourenço Marques para outro texto, por acaso cruzei-me com umas fotografias da “fortaleza” e um magnífico texto creio que da pena do Sr. Pedro Nunes, num blogue chamado Moçambique Multimédia, (que copio desavergonhadamente e com vénia até ao chão)  e que creio que passam da opinião meramente verbal para algo um pouco mais condicente com o que eu referi há um ano e meio atrás.

Mas antes do que se segue um brevíssimo comentário: Moçambique tem uma grande história e da melhor e mais esplêndida arquitectura militar portuguesa em quase todo o mundo. Menciono aqui a da Ilha de Moçambique, e há mais algumas espalhadas por aí. Tudo do mais genuíno que há.

Bom para o turismo.

Então vamos lá. Refere o Sr. Pedro Nunes:

Em diagonal à velha Casa Amarela é a Fortaleza Nova do Presídio, reconstruída em 1940 sobre o alicerce da primitiva. Que aliás nunca existiu, capaz e completa em qualquer tempo.Entra-se, e é um pequeno museu de sugestivas antiguidades históricas.Artilharia velha na parada, armas e peças no quartel da entrada á direita, epígrafos e pedras de armas arrancadas ás fortalezas do Norte e postas nas paredes do quartel da esquerda, com restos dum arco e pilastras de Sofala (1506), relíquias de arte sacra noutra ala em que se guarda a primitiva imagem de Nossa Senhora da capela do Presídio ( que data de 1819), retratos, bustos, espadas e recordações de grandes figuras históricas noutra sala e na caserna em frente os restos da vida quotidiana de outros tempos.

Fora plantas, desenhos e fotografias de sítios e coisas antigas.Conjunto eloquênte, acima de tudo simbólico, a principiar na Fortaleza reconstruída no alicerce primitivo, com imaginação e estilo, e poderosamente sugestiva. A falta mais sensível será,além de não ser verdadeira, não ter agora o flanco sul metido ao rio, com água pelo rodapé da muralha enterrada funda na praia, mas isso é culpa antiga dos aterros do começo do século XX e das grandes obras que já haviam modificado e acrescentado a Fortaleza para a fazer Quartel de Caçadores, e depois Capitania dos Portos, com casas à frente e alcândoradas nos baluartes e nas cortinas. Qualquer semelhança que possa haver entre a fortaleza atual, bonita como um brinquedo, e a realidade histórica, é, pois, pura imaginação.Durantes décadas seguidas o problema máximo da terra foi sempre acabar-se a fortaleza, isto é, transformarem-se em alvenarias as barracas, as palhotas e a estacada, fazer-se ao menos de pedra vermelha barrada a cal, em amarelo ou branco, o segundo baluarte, com pequenas ameias abertas no murinho estreito.

Sede de todos os embrionários serviços públicos da povoação, a fortaleza velha, á medida que perdeu o valor militar por ter passado a defesa para a orla do Presídio, foi-se rodeando de “acrescentos” encostados ás muralhas aproveitadas para paredes, e, transformadas as casernas em quartos com alpendres, ninhadas de crianças a brincar pela extinta parada, arames de roupa estendida ao sol em toda a parte, parecia a irreconhecível fortaleza uma típica Ilha do Porto, a quem nem sequer faltava o ambiente castiço dos marítimos da capitania a gozar a folga, exibindo-se nas preguiçosas cadeiras de lona em calças velhas e camisola interior.A restituição foi ao menos um ato de justiça elementar, com as conjecturas possíveis.

Mas os portugueses ficaram, embora fossem morrendo, uns atrás dos outros, governadores, oficiais e soldados.Adaptava-se cada um como podia com os velhos instintos da “Lusotropicalidade”. A verdade é que a “Feitoria da Sociedade dos negociantes da Baía de Lourenço Marques”crescia em Delagoa – designação internacional que a terra tinha.E foi assim que a cidade principiou, com dezesseis pessoas apenas.Construiu-se o Armazém Real,com a cal conduzida, provavelmente, da barreira de conchas que existe na margem do Rio Matola..Eram negros, além do pedreiro, o carpinteiro que fez as portas assim como o ferreiro de Inhambane que fabricou as ferragens,e o calafate que consertava a lancha do Estado.

A iluminação dos quartéis era com azeite de baleia, fabricado nas praias da baía pelos baleeiros Ingleses e Americanos.Quem tratava dos doentes era um curandeiro Landim, que, por cada soldado que curava recebia de pagamento uma capulana. De vez em quando entrava um navio estrangeiro que trocava qualquer coisa por marfim, pois o barco de viagem só chegava de ano a ano, e ás vezes naufragava.
Assim ia a vida em Lourenço Marques no começo do século XIX, ao principiar o estabelecimento miserável que é hoje a cidade encantadora, fascinante e requintada.

Antes das fotografias, há ainda mais uma coisa que acho piada mas que é essencialmente um segundo e delicioso barrete e que é…..(ta-raaam)

O ENFORCAMENTO DO GOVERNADOR RIBEIRO DIONÍSIO NA ÁRVORE

Dionísio António Ribeiro foi um governador de Lourenço Marques. “Governador de Presídio”, isto é, o que significava que governava principalmente a si próprio, pois então não havia nada de nada no local a não ser uma palhotas.

Isto até ter perturbado os poderes locais, que o prenderam e o executaram. Ponho o cargo dele acima entre aspas porque, se se ler a pouca literatura que existe sobre o assunto, o homem era mais um habilidoso pulha vigarista malcheiroso negociante de banha da cobra que basicamente fazia uns biscates para o governo português, o que era pouco ou nada (leia-se o Lobato e o Fernandes).

Ribeiro, que, ao que se entende dos relatos, naquela altura era o que hoje se pode chamar em Maputo um “empresário local de sucesso”, tentou forçar a sua sorte nos negócios usando o seu então recente e dúbio título de “Governador de Presídio” (a edificação em si era uma inegavelmente nojenta e destituta espelunca) e as poucas munições de que dispunha, para tentar extorquir concessões das tribos locais, de que se menciona os Maxaquenes.

Ora, uns dissidentes do Sr. Shaka Zulu (nada menos) liderados pelo Sr. Manicusse (ou Soshangane, nunca acerto nestes nomes) que por acaso passaram por lá enquanto fugiam dos homens do Sr. Shaka Zulu, deram-lhe cabo do canastro, derrubaram mais uma vez o “presídio” e foram para mais ao Norte, arrasando e conquistando tudo e todos pelo caminho (menos os Chopes, não me perguntem porquê) para fundar o mais tarde chamado Império de Gaza.

O Manicusse lá em cima, foi o que foi pai de Muzila, que foi pai de Gungunhana. Também havia monarquia cá.

Conto este episódio porque se os exmos Leitores forem ver na internet hoje em dia menções sobre a Fortaleza de Maputo, quase todas vêm com uma colorida chachada sobre uma “lenda” em que refere que Dionísio Ribeiro (após supostamente ter sido arrastado da “fortaleza” pela porta…) foi enforcado pelos funcionários do Sr. Manicusse numa velha árvore hoje situada mesmo em frente à entrada Poente da actual “fortaleza”. Isto tudo em 1883.

E que a “fortaleza foi atacada e a guarnição dizimada”.

Ai sim?

Bem, de facto, há aqui uns pequenos problemas.

O primeiro problema é que o episódio de Dionísio Ribeiro ocorreu cinquenta anos antes, ou seja em 1833, não em 1883, mais ou menos na altura em que os Suázis e os Zulus andaram pelo que é hoje o Sul de Moçambique a matar e a arrasar tudo e mais alguma coisa.

Há quem diga que deve ter sido em parte resultado do aquecimento global versão século XIX: para além do Sr Shaka Zulu, claro, que não era para brincadeiras, naquela altura uma grande parte de Moçambique atravessou uma das piores secas de sempre, quase dez anos seguidos, o que causou todo o tipo de problemas entre as populações, de entre os quais o colonialismo era provavelmente o menos importante. Muita gente morreu de fome e houve muito milando porque as populações tiveram que ir à procura de água e de comida.

Ribeiro terá sido morto mais precisamente, no dia 13 Outubro de 1833.

Eu sei que isto da data pode parecer uma gralha, mas pelos vistos a gralha já se espalhou de tal maneira que a ficção tornou-se a realidade. E agora até já temos o neto de Soshangane a matar o Dionísio, cinquenta anos depois de ele ter sido morto pelo avô.

Segundo, antes que se invente uma heróica investida na “fortaleza”, na verdade Dionísio Ribeiro foi capturado quando estava a tentar fugir numa barcaça da Ilha Xefina (pois que a “fortaleza” não aguentava com três homens a atirar pedras, nem tinha uma “guarnição” por assim dizer).

Terceiro, antes que se faça disto mais um daqueles episódios de resistência proto-nacionalista moçambicana contra os tugas de então (pois pelos vistos só havia dois em LM, e ainda por cima odiavam-se) os registos indicam que todo o episódio não passava, na realidade, de uma teia de tricas entre ele, um outros tugas rivais dele chamados Vicente e Nobre, e o Governador provincial, que estava no conforto do seu palácio lá na Ilha de Moçambique*.

Tiveram foi azar, pois Soshangane também não era para brincadeiras.

Finalmente, e não menos importante: em 1833 a veneranda árvore não existia no local para se poder lá pendurar o desgraçado do Ribeiro.

Não estava lá.

Ok.

Vamos então às fotografias, cortesia da Casa.

Não se esqueça: para ver melhor prima nas fotos para ampliar.

A "fortaleza", fim do séc. XIX. Sim, é "aquilo" à direita. Se o exmo. Leitor ampliar a foto verá os canhões a apontar para a baía. Aquilo à esquerda da "fortaleza" é um pontão de terra.

A "fortaleza" vista de poente no mesmo dia. É o que está directamente em frente ao exmo. Leitor, incluindo a cabana à direita. Pode-se ver o mastro meio dançante, onde creio estar uma bandeira

Uma nota de rodapé: entre a foto em cima e a que se segue, houve extensíssimos trabalhos de aterramento na cidade, em que se puxaram as areias das barreiras (que caiam abruptamente sobre a baía, tal como ainda se vê hoje na Catembe) e se aterrou a baía para o local em que se encontram hoje.

Uma consequência desses trabalhos é que a esquina da “fortaleza” que havia até há uns 110 anos no que é hoje a baixa de Maputo, e que nas duas primeiras fotos está directamente em cima da baía, agora está a uns cem metros da água.

Veja-se:

Nesta fotografia já se nota muito da actual Maputo. Mas se o exmo Leitor olhar atentamente, nesta precisa foto a "fortaleza" ainda está no seu estado original, tal como se vê nas fotos em cima, mas dentro de terra uns cem metros e atrás do então edifício da Capitania Buildings, que o ofuscava

Nesta foto, tirada já depois da II Guerra Mundial, a "fortaleza" foi "reconstruída" em pedra da Ponta Vermelha, fachada que basicamente nunca na vida teve, e com aquelas ameias óptimas para os miúdos brincarem, canhões, placas centenárias na parede, etc. Tudo ficção.

Aquilo no fundo foi um pouco como o que parece que os Aga Khans fizeram ao Hotel Polana agora. Oops: Polana Serena Hotel Maputo.

Após o derrube (criminoso) dos Capitania Buildings e uns trabalhos de jardinagem, a "fortaleza" assume o seu esplendor, aqui cerca de 1973. Boa para enganar os boers que vinham passear até à cidade

Portanto, exmo. Leitor, goze a Fortaleza de Maputo e lembre-se: se quiser, com um bocado de dinheiro, pode sempre construir o seu próprio passado.

O Vasco da Gama empedrado entretanto deve continuar esquecido lá no quintal do Conselho Municipal de Inhambane.

* ver Alexandre Lobato, “A Invasão Vátua de Lourenço Marques em 1833”, em Quatro Estudos e Uma Evocação para a História de Lourenço Marques (Estudos Moçambicanos, Junta de Investigações do Ultramar, 1961) pp. 119-140.

30/09/2010

POLANA FOREVER

O hotel nos tempos da outra senhora

por ABM (29 de Setembro de 2010)

É oficial. Diz a nota de imprensa que recebi hoje:

Após 21 meses de obras profundas, orçadas em 25 milhões de dólares, o Polana Serena Hotel reabriu, posicionando-se como um hotel de cinco estrelas de luxo e dando o seu contributo para o crescimento económico e social de Moçambique.

Detido pelo Aga Khan Fund for Economic Development (AKFED), o Polana Serena Hotel renasceu no início deste mês, reabrindo as suas portas após profundas obras de reabilitação que lhe restituíram o esplendor, luxo e glamour dos seus tempos áureos.

Mantendo-se a histórica fachada, todo o hotel foi intervencionado, incluindo entrada, lobby, bar, salão de baile, restaurantes, quartos e bar.

O Polana Serena Hotel conta agora com um total de 142 quartos e complementa-se, entre outras facilidades, com dois restaurantes, dois bares, sendo um deles, o Aquarius Bar, separado do edifício do hotel, e o salão polivalente.

Fico contente com o esforço da organização e rezo que a reabilitação não tenha tornado o Polana numa piroseira como as outras. Só vendo. Mas a 82 euros o visto vai ter que esperar até ter que ser mesmo.

E eu não sei se o exmo. Leitor reparou na pequena dislexia conceptual cometida logo no início do texto: aquela em que diz que o Polana se posicionava “como um hotel de cinco estrelas de luxo” da capital.

Ora vamos lá a ver.

Pensava que os dois conceitos queriam dizer a mesma coisa.

Pode-se ser um hotel de luxo sem ser de cinco estrelas?

Pode-se ser de cinco estrelas sem ser de luxo?

Enfim, não se pode reclamar.

Afinal, quem acabou de gastar 25 milhões de dólares em renovações num hotel de cinco estrelas de luxo se calhar já não tem dinheiro para pagar a alguém que faça um pequeno texto a dizer que acabou de gastar 25 milhões num hotel de cinco estrelas de luxo.

18/09/2010

POSTAIS – O HOTEL POLANA EM MAPUTO

Filed under: Postais Moçambique — ABM @ 2:58 am

Entrada do Hotel Polana nos anos 60

O hotel. Foto tirada do telhado do prédio da esquina

por ABM (17 de Setembro de 2010)

Em cima, duas imagens de um postal do Hotel Polana nos anos 60.

Ah, se aquelas paredes pudessem falar.

Este mês, o velho hotel deve ressurgir após mais um restauro, este um tanto misterioso porque custou milhões mas numa entrevista que eu li eles dizem que não mudaram quase nada. Imagino que m,ais umas salinhas de conferências, um ginásiozinho, coisas desse género.

Confesso que mudar o nome do hotel metendo lá o “Serena” da cadeia (“Polana Serena Hotel”) não tem lá muita piada e destoa da sua longa tradição. Com todo o devido respeito, onde estava o grupo Serena em 1922?

Além disso, o exterior do hotel durante décadas esteve pintado de branco, mas quando os Srs do Serena entraram há uns anos, pintaram o edifício de côr creme. Creme!

Enfim.

Antes da Independência, só meti lá os pés uma vez. A meu pedido, o meu pai levou-me lá a jantar uma vez, pouco antes de deixar Moçambique para estudar em Coimbra, em Fevereiro de 1975.

Confesso que não fiquei nada impressionado, nem com o hotel nem com a comida. Eu estava mais habituado a comer os fabulosos pregos no prato que a imunda e desorganizada cozinha do bar do Desportivo (o clube onde cresci) servia.

Com uma Tombazana bem gelada, um prego do bar do Desportivo era ascender aos céus e tocar os deuses.

Muitos anos depois, e muito mais velho, tive a chance de frequentar o hotel com alguma frequência. Confesso que, com o tempo, e rapidamente, foram as pessoas que lá trabalhavam que mais me tocaram. Eles e elas “eram” o Polana para mim – o Polana de agora, moderno, parte do tecido do novo Moçambique, falando uma nova língua, cultivando uma nova relação com a cidade, mas mantendo aquela longevidade intemporal, aquele padrão de qualidade que caracterizaram a sua reputação, a sua marca na cidade e no mundo.

Uma curiosa e rara combinação, numa cidade e num país em que se chegaram a inusitados extremos para erradicar tudo o que tivesse que ver com o que ali aconteceu nos cem anos precedentes, como se de um necessário exorcismo se tratasse.

O Polana lá continua, um monumento à cidade, ao país, e a tudo o que mudou.

E o que permaneceu.

Bom fim de semana.

15/02/2010

A POLANA E O HOTEL POLANA

Construções na praia da Polana há cem anos. Ao fundo a colina da Ponta Vermelha. Note-se que a actual marginal foi roubada às colinas e que naquela altura não era possível vir da baixa para a praia da Polana a não ser a pé pela praia ou, mais tarde, pela Estrada do Caracol e pelo eléctrico que descia uma rampa atrás do Clube Naval que hoje creio que está fechada.

por ABM (Cascais, 15 de Fevereiro de 2010)

Na noite em que o Senador JPT nos brindou com a periclitâncias do termo machimbombo, eu coloquei uma outra questão: e de onde veio o nome “Polana”?

Sendo que eu nasci, cresci e vivi na Polana (bem, no dia em que nasci meus pais estavam acampados no aquartelamento de Boane, onde o pai BM era um tenente miliciano. Mas a mãe BM tinha vindo à cidade ver o filme Casablanca com uma amiga e já não foi para o cinema, foi directa para o Hospital Miguel Bombarda onde nasci às 20 horas de 30 de Janeiro de 1960).

Primeiro, um ponto de ordem. Antes da independência, aquilo a que se chamava Polana era uma área geográfica muito específica da cidade, circunscrita (e escrevo isto de cabeça) a Norte pelo Hotel Polana e pela chamada Carreira de Tiro (ainda hoje há uma farmácia com esse nome, é para aí), a nascente pelas barreiras e a Rua Friedrich Engels (acho antigamente se chamava a Rua dos Duques de Connaught mas não tenho a certeza, é aquela onde fica o Miradouro), a Sul pela Ponta Vermelha (que era literalmente uma língua de terra, do Palácio até às barreiras) e a Poente pela Maxaquene, que era mais ou menos na rua onde fica a Pastelaria Princesa.

Hoje não percebo nada. Fala-se em Polana Cimento, em Polana Caniço, não entendo muito bem a razão para o realinhamento dos bairros mas também não interessa.

O importante é que o nome está lá há muitios anos.

Mas então, de onde vem?

“Polana” não é um termo ou um nome português. Nem é referenciado em parte nenhuma na história dos portugueses.

Uma consulta na internet indica que em polaco, “polana” é o nome dado a uma clareira numa floresta – sendo que “polanski” é o nome de alguém que vive nessa clareira. Em grego, supostamente, deriva de Apollina, nome feminino do nome de (por exemplo) o deus grego Apollo, significando “sol”.

Mas poderá ser um nome africano? mais precisamente, houve um régulo chamado Polana? Numa peça publicada pelo inolvidável João Craveirinha sobre Maputo (na qual conclui que a capital de Moçambique devia ser mudada para o centro do país), o sobrinho do Sr. José Craveirinha a certa altura escreveu o seguinte:

O mesmo Lobato fazia alusão às invasões vindas do norte, dos grandes Lagos, foz do rio Nilo Branco, de que nos falaria outro grande historiador de Moçambique, Caetano Montez quando referia que: “(…) a gente do Tembe foi invasora como também o foi a de Mpfumo (…) Maputo é um ramo da dinastia do Tembe: Matola é um ramo da dinastia de Mpfumo (…)” Caetano Montez, ainda na sua obra “Os Indígenas de Moçambique”, diz (…) A casa da Matola (Matsolo) provinha de In-lha-rúti (Mpfumo), o invasor das terras da margem norte da baía, vindo com a sua gente de Psatine (Suazilândia). Seus filhos Mpfumo, Polana, Massinga e nuá-Intiuane repartiram as terras como vassalos do pai. Nuá-Intiuane (deu Tivane) ficou com as que denominariam Matola.

Segundo estas indicações, é então plausível que os terrenos onde dantes se situava a “velha” Polana, poderão ter pertencido ao tal Polana, filho do tal invasor que que veio da Suazilândia não se sabe bem quando. Mas então, cadê do Sr. Polana? Haverá registos de transacções imobiliárias dessa altura?

Na sua dissertação para o grau de Doutora pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1979, Maria Clara Mendes a certa altura refere a compra, em 1914, pelo Estado, dos terrenos compreendidos entre “a Rua de Nevala, a praia da Polana e a Rua Bérrio, que compreendem actualmente a Polana e a Sommerschield”.

Num detalhado relato sobre a construção, concluída em 1922, do Hotel Polana, a que tive acesso, é de facto referida a aquisição dos terrenos onde o hotel hoje se situa ao Estado pela Delagoa Bay Lands Syndicate, a empresa que ganhou o contrato para a sua construção.

Só que, que eu saiba, o nome Polana não é nada comum nos grupos étnicos que entravam e saiam da região da Baía – nem me parece ser particularmente “suázi”. Mas apelo aos exmos leitores que saibam alguma coisa que ajudem a fechar este puzzle.

O HOTEL POLANA

Hotel Polana, imagem de um postal da época

Sobre este tema, não vou inventar a roda, pois, enterrado algures na Geocities há um excelente artigo de José Maria Mesquitela que, com profunda vénia, cujo texto transcrevo em baixo. De notar que este texto deve datar cerca dos anos 90, antes da concessão do Hotel Polana ter sido cedida à organização Aga Khan e o seu nome ter sido alterado para Polana Serena Hotel (e lamentávelmente, o edifício pela primeira vez ter sido pintado de creme em vez do habitual branco).

O texto:

“A construção de um grande e luxuoso hotel para servir o turismo rico foi ideia que nasceu cerca de 1917 em Lourenço Marques.Como todas as iniciativas audaciosas, teve defensores e detractores. Havia altos interesses em jogo.

Longa fora a jornada, primeiro que a ideia se concretizasse e ao fazer a história do empreendimento de forma alguma se pode esquecer o nome do coronel Alexandre Lopes Galvão que por ela se bateu. Ele próprio se referiria mais tarde, a esses tempos difíceis, em carta de 26 de dezembro de 1950, que escreveu a um amigo de Lourenço Marques :

…” Chego a Lourenço Marques em 1917, verifiquei que não havia ainda um hotel para receber ´pessoas de categoria, que nos visitavam. Passei a fazer parte do Conselho de turismo, onde pontificava o comandante Augusto Cardoso, dono do Cardoso Hotel.

De variadíssimas inssistências para que o Conselho tratasse de arranjar para Lourenço Marques um hotel decente, cheguei à conclusão que o assunto não interessava ao Conselho.

Apareceu-me nessa altura Adriano Maia, que me disse que os seus amigos do Transvaal estavam dispostos a fazer um grande hotel em Lourenço Marques, em determinadas condições. Ouvi-o, ouvi as condições, que me pareceram aceitáveis e levei o caso ao conhecimento do Massano de Amorim. Este achou bem e autorizou-me a negociar.

O Comandante Cardoso, ouvindo falar do caso, foi para o Conselho de Turismo, e diz: Ouvi dizer que há negociações para se fazer um hotel. E, olhando para mim, acrescentou: Alguém sabe dizer alguma coisa do que se passa? Resposta minha: Eu sei, mas não estou autorizado a dizê-lo. Mas como o Conselho despacha directamente com o Governador-Geral, é-lhe fácil saber o que há.

Na noite desse dia recebo no Hotel Cardoso uma carta do Comandante Cardoso dizendo cobras e Lagartos ! e cortando as relações comigo.

Mostrei a carta ao Mariano Machado e este pediu-me autorização para ir falar no assunto ao Comandante. E foi. Vem com a resposta de que jamais reataria relações comigo.

Levadas as negociações a bom termo, os capitalistas foram a Lourenço Marques e o Inspector Góis Pinto foi autorizado a lavrar o contrato.

O Comandante Cardoso perde a cabeça e faz um manifesto patriótico ap povo de Lourenço Marques, assinado por ele e pelo arrendatário Luís Boschian, Italiano.

O Massano, nessa altura, foi para o Norte da Colónia e ao chegar a Inhambane recebe um telegrama assinado pelo comandante Cardoso e creio que pelo Boscgian, protestando contra a construção do hotel. O Chefe de gabinete foi quem lhe deu conhecimento e o Massano de Amorim disse-lhe: “responda-lhe dizendo que vá ver da…”

Em resumo: se Lourenço Marques passou a ter um belo hotel, inaugurado em Março de 1922, a mim o deve.

Ficou a representar os capitalistas o velho Leão Cohen. Eu estava na África do Sul, nessa ocasião, onde tinha ido com Freire de andrade na Missão Diplomática que havia de negociar uma nova convenção. Pois ninguém se lembrou de me convidar para a inauguração, que se fez com um certo aparato. E nem ao menos o meu nome foi lembrado nos discursos laudatórios, então pronunciados.”

Alexandre Lopes Galvão

Em outubro de 1918, foi aberto um concurso pela Delagoa Bay Lands Syndicate , apresentado pelos Senhores A.W.Reid & Delbridge, arquitectos de Johannesburg e Cidade do Cabo, para a construção do Hotel Polana, ao qual concorreram sete firmas construtoras, das quais, apenas uma era Portuguesa, conforme abaixo:

– Hill Mictchelson, de Johannesburg, classificado em segundo lugar.

– Ferreira da Costa, de Lourenço Marques

– Philip Treeby, de Johannesburg

– Herbert Baker & amp; Fleming, de Johannesburg

– H.W.Spicer, de Johannesburg

– R.L.McCowat, de Johannesburg

Os planos foram postos em exposição no Conselho de Turismo, e aprovada pelo Governo a construção do novo Hotel na Polana pela Delagoa Bay Lands Syndicate, por ser a proposta mais barata apresentada. Ficou o compromisso que o Hotel seria construido em 19 meses. Os proprietários do hotel instalarão uma planta para fornecimento de luz elétrica e um frigorífico.Com isto, com mobília, ascensor para a Polana, e direitos, etc, o custo total do Hotel ficou estimado em 200 000 Libras.

O Governo garantiu ao Sindicato 6% anuais sobre o capital empregado durante dez anos, assim como garante algumas concessões.

Projecto de um arquitecto famoso

O projecto desse hotel em estilo “Palace” foi de autoria de um não menos famoso arquitecto inglês, Sir Herbert Baker, autor do projecto do majestoso edificio da “Union Buildings”, em Pretória. A sua construção foi dirigida pelo engenheiro Hugh Le May.

Inauguração

Iniciada a sua construção, devido à iniciativa do Coronel Lopes Galvão, que foi sem dúvida alguma a alma deste notável empreendimento turístico e que no governador-geral, general Massano de Amorim, encontrara sólido apoio, o Hotel Polana inaugurou-se no dia 1 de Julho de 1922.

Foi um acontecimento de grande relevo na vida da cidade. A assinalar a data, a Delagoa Bay Lands Syndicate, que se fez representar por Leão Cohen, ofereceu nesse dia um almoço solene.

Na mesa em U armada na elegante sala de jantar do Hotel Polana, sentaram-se 131 convidados. Na presidência, à cabeceira da mesa, Leão Cohen, dava a direita ao Alto Comissário, Dr. Brito Camacho, ao cônsul de Sua Majestade Britânica, Hall , e ao secretário-geral, Dr Mário Malheiros. À sua esquerda sentavam-se o inspector das Obras públicas, Eng. Monteiro de Macedo, o cônsul da França, G.Savoye, o chefe do Estado-Maior, coronel Santana Cabrita e o cônsul dos Estados Unidos, Hazeltine.

A construção acabou beirando o valor de 300.000 Libras, mas foi considerado na época uma das construções mais perfeitas e modernas e sem rival nos portos do Sul, havendo muito poucos hotéis na Europa semelhantes.

Ele tinha vida própria para a sua laboração: máquinas geradoras de electricidade e aquecimento, Frigorífico, Lavandaria eléctica, Fábrica de sodas, Telefones e água quente em todos os quartos, e para tudo ser completo, estava programado para questão de dias um serviço permanente de correios e telégrafos, permitindo assim aos seus visitantes expedir cartas, telegramas, radiogramas e até encomendas postais para todas as terras e navegação.

A inauguração do Hotel, também mexeu significativamente no movimento da cidade, pois um mês e meio depois da inauguração, os carros elétricos começaram a transitar até ao bairro da polana, com uma paragem obrigatória no Hotel.

Na área externa do hotel, tinha um lindo campo de golfe , quadras de ténis e jardim que o embelezavam.

Assumiu a gerência do hotel, o Sr. Kershaw, auxiliado por sua esposa.

O hotel deu ênfase ainda ao turismo na cidade de Lourenço Marques, que assim passava a contar com um ponto de super luxo, e delegações de vários paises, tais como a própria África do sul e países vizinhos, ou de Italianos e até Brasileiros que começaram a ser trabalhadas as excursões a Moçambique.

O Hotel muda de mãos

Em junho de 1936 o hotel mudou de mãos pela primeira vez. Tendo a Delagoa Bay Lands Syndicate posto o imóvel à venda, a oportunidade foi aproveitada pelo milionário I.W.Schlesinger, que o adquiriu pela importância de 400.000 Libras. Pouco depois a empresa foi registada sob a designação de “Polana Hotel, Lda”, sociedade com o capital de um milhão de libras.

Tempos passados, a African Consolidated Investments Corporation, uma das muitas organizações de Schlesinger, passou a ser a maior accionista da empresa exploradora do hotel, que pouco depois passou para a African Caterers, também importante organização do grupo de companhias Schlesinger.

No periodo que precedeu a II Guerra Mundial conheceu anos de prosperidade, projectanto-se internacionalmente nos mapas turísticos como um dos mais importantes de toda a Àfrica, depois de Cairo e do Carlton, de Johannesburg.

Nos seus salões se realizou o banquete de gala que as Forças Vivas de Moçambique ofereceram em honra do presidente da República Portuguesa, Marechal António Óscar de Fragoso Carmona, o primeiro Chefe de Estado que visitou oficialmente Moçambique, em 1939.

Durante a II Guerra

Quando a 1 de setembro de 1939, com a invasão da Polónia pelo exercito alemão, rebentou a II Grande Guerra, ao Hotel Polana, pela sua privilegiada situação de hotel de luxo e ponto de reunião da nata da sociedade lourenço-marquina, coube desempenhar, pela força das circunstâncias, outro curioso papel: o de centro elegante de espionagem e de intriga Internacional.

Durante a II Guerra, o Hotel Polana gozou de reputação internacional porque, tendo Portugal proclamado a neutralidade, os agentes secretos tanto dos Aliados como das potências do Eixo (Alemanha e Itália) Puderam ali dedicar-se com certo à-vontade a práticas de espionagem e de contra-espionagem. Os espiões dos dois lados, passaram naturalmente a servir-se desse luxuoso hotel de uma cidade portuária para campo de sua acção.

Assim, agentes secretos Sul-Africanos, Ingleses, Americanos, alemães e Italianos, cumprimentavam-se cerimoniosamente quando se cruzavam nos seus longos corredores, nos seus salões ou no “Bar”.

Um dos agentes mais notáveis que por ali passou foi o tenente-coronel J. Stevenson-Hamilton, então fiscal de caça do Kruger Park. Em suas memórias, descreve a missão mais agradável, quando teve que se infiltrar em Lourenço Marques, instalado no Hotel Polana, quando descobriu que, em principio de Junho de 1940, quando correu um boato que os Alemães haviam invadido e tomado Lourenço Marques e se preparavam para invadir a África do Sul via Komatipoort, que se tratava de um boato propositadamente implantado por agentes alemães que operavam em Lourenço Marques, numa rede de espionagem bastante eficiente. possuiam emissoras clandestinas que mantinham os submarinos nazis que operavam no Canal de Moçambique bem informados dos movimentos dos navios aliados no porto de Lourenço Marques.

O chefe dos espiões era um importante membro da Gestapo. O “Quartel-General “era o Hotel Polana.

O Hotel na mão dos Portugueses

Em 1963, John Schlesinger, filho e herdeiro do milionário que havia adquirido em 1936 o famoso estabelecimento hoteleiro, vendeu-o a uma empresa onde os capitais Portugueses eram solidamente presentes, entre eles um dos dos acionistas era o Eng. Manuel Arouzo, que foi o braço forte do Hotel durante anos, até que um problema com o seu procurador o fez sair da sociedade.

Nesta fase foi ampliado e construída a sua piscina tão tradicional e ainda um novo anexo, o Polana-Mar, que assim atendia à demanda que cada vez mais se avolumava

O Hotel manteve o seu glamour, sempre foi frequentado pela nata da Sociedade Lourenço-Marquina, assim como por todos os turistas de peso que visitavam constantemente Lourenço Marques.

O Hotel Polana confundia sua Imagem com a da Capital de Moçambique.

O Hotel e a Independência

Com a Independência de Moçambique, após 1975, o Hotel entrou em declínio,por falta de clientes e pela degradação pela óbvia falta de pessoal e respectiva manutenção, permanecendo durante 20 anos praticamente abandonado.

Em 1994, um grupo Sul-Africano adquire o Hotel, remontando às suas origens de fundação, e com as melhoras que já sinalizava Moçambique, deu continuidade ao seu estatuto de um dos melhores hotéis de cinco estrelas do continente africano. Desde o hall, revestido a mármore, aos jardins generosos em estrelícias e coqueiros, nada é deixado ao acaso neste escaninho luxuoso, que se prepara para nova reestruturação. Curiosamente, não é apenas procurado por viajantes exigentes, mas também pelos próprios maputenses, devido à cozinha requintada e à pastelaria – o chá com scones e o cozido ao domingo são dois clássicos –, à piscina – a mais cobiçada de Maputo – e até ao ginásio. É ainda um dos lugares da cidade que são frequentados para ver e ser visto.

A IPE -Investimentos e Participações Empresariais está, em parceria com o Grupo Pestana, a negociar a compra do Hotel Polana. O grupo que detém a maioria do capital do prestigiado Hotel Moçambicano encontra-se com sérias dificuldades financeiras e pretende vender a sua participação. Caso o negócio se concretize, o Grupo Hoteleiro Português, que tem já vários empreendimentos turísticos em Moçambique, será responsável pela gestão e o controlo do Hotel Polana.

A holding do Estado português tem cerca de 1,6 milhões de contos investidos em Moçambique, nomeadamente nos sectores agro-industrial, ambiente, financeiro e em infra-estruturas industriais. Caso a co-aquisição do Polana venha a concretizar-se, o investimento do IPE deverá subir para cerca de 2,4 milhões de contos.”

E aqui está mais uma “maschambada”.

05/12/2009

Postal dos Tempos

Filed under: Postais Moçambique — ABM @ 12:25 pm

LM Baixa 222

por ABM (Cascais, 5 de Dezembro de 2009)

Ontem comprei este postal de Lourenço Marques para a minha colecção, que o Exmo. Leitor poderá apreciar em algum detalhe.

Na altura esta era chamada Avenida Castilho. É a rua que desce para a baixa da cidade e que primeiro a ligava à Ponta Vermelha. Bem, na altura a “baixa” era a Rua Consiglieri Pedroso, que misteriosamente reteve o nome. Por detrás de quem tirou esta fotografia já se situava o que é hoje a Embaixada Britânica em Moçambique. O edifício que se vê é hoje o Supremo Tribunal de Justiça de Moçambique, envolvido pelo Jardim Tunduru (anteriormente Jardim Vasco da Gama). Em baixo do lado esquerdo fica hoje o prédio de 33 andares.

Talvez mais curioso seja o que se vê mesmo no fim da rua, onde hoje se situam a Capitania do Porto e o indescritível Maputo Shopping Center. Só se vê a baía. Isto porque naquela altura ainda não se havia procedido aos trabalhos de aterro da vasta zona que ia (em linha quase recta) do pontão onde os barcos pegavam e largavam passageiros, até onde fica hoje o antigo Clube de Pesca, quase em frente à Ponta Vermelha. Em frente a esta antiga Avenida Castilho, onde se situa hoje a Avenida 25 de Setembro (anterior Avenida da República) ficava a praia.

Apanhava-se amêijoas ali.

13/10/2009

J&M Lazarus e Lisboa, Abril de 1915

jmlazarus

por ABM

Dando uma achega à detalhada inserção do JPT, relativa aos primeiros fotógrafos a operar em Moçambique, acima reproduzo um anúncio publicitário de J & M Lazarus, que terão operado em Barberton no fim do século XIX mais ou menos na altura em que naquela vila da então República Sul Africana Meridional (mais tarde, Transvaal, a seguir Mpumalanga) ocorrera uma corrida ao ouro falsa, depois mudaram-se para Lourenço Marques (mais tarde, Maputo), onde operaram durante alguns anos e deixaram um interessante espólio fotográfico na forma de postais e trabalhos para a então edilidade. Os irmãos Lazarus depois mudaram-se para Lisboa, onde passaram a operar, sendo mencionados nomeadamente no espólio da colecção fotográfica da presidência da república portuguesa, donde se deduz serem então considerados entre os melhores fotógrafos da capital portuguesa.

Obtive o anúncio acima reproduzido numa interessantíssima revista lisboeta, dirigida à classe burguesa, que se chama Contemporanea (sem acento circunflexo), edição de Abril de 1915, página 13.

A Europa estava então nos primeiros seis meses da I Guerra Mundial (então conhecida apenas como a Grande Guerra) e Portugal na altura ainda não fazia parte do conflito. Entraria mais tarde para salvar as colónias e porque, quase caricatamente, os militares portugueses, com tesão de mijo porventura por causa do Gungunhana, achavam que podiam jogar a sério na Liga Principal. De uma Paris assediada pelos alemães a Leste, um correspondente da revista, Justino de Montalvão, redigira um sórdido e sombrio artigo, descrevendo as vicissitudes dos parisienses, a cidade silenciosa, às escuras, sem transportes e sem vida nocturna, sob a constante ameaça dos bombardeamentos pelos zeppelins alemães.

Em Abril de 1915 a república portuguesa existia há apenas cinco anos, desde que houvera umas escaramuças em Lisboa e o rei fugira e se procedera ao envio de telegramas para as províncias e colónias a avisar que fora instaurada uma – a -república. O novo regime era caracterizado por um optimismo quase fantasioso, uma instabilidade total e um anti-clericalismo sem precedente, mas já mostrava sinais claros de estar a perder o rumo e assustado pelos efeitos de uma potencialmente catastrófica participação no conflito mundial. Estupidamente, entrou 11 meses depois: La Lys foi infame; de resto foi apenas muito mau: um submarino (o U-155, que no fim roubou uns chicharros para um churrasco) mandou uns tiros contra Ponta Delgada, a cidade do Funchal foi atacada uma vez, Paul von Lettow-Vorbeck fez o que bem quis no Norte de Moçambique durante quatro anos e houve umas chaticezitas em Angola.

No cômputo geral, os 7500 soldados portugueses mortos num único dia em La Lys (9 de Abril de 1918) permitiram que a delegação portuguesa tomasse um lugar entre os vencedores em Versailles, pedisse umas massas valentes e mantivesse o Império.

Nas páginas da Contemporanea, surpreendentemente pelo menos para mim, que tinha a impressão que a melhoria nas relações entre a República e a Igreja Católica só ocorrera com a ditadura de Sidónio Pais, há um artigo acompanhado de fotografias, atestando parcialmente esse degêlo já em Abril de 1915, alternando fotografias do General Pimenta de Castro e do seu governo (caracteristicamente breve: nomeado a 28 de Janeiro, derrubado em 15 de Maio) com imagens das procissões e missas que decorriam na capital portuguesa durante a Páscoa Católica nesse mês: um mar negro de devotos à porta das igrejas.

Nesse ano de 1915, um obscuro tradutor de nome Fernando António Nogueira de Seabra Pessoa, anestesiado por doses consideráveis de aguardente Águia Real, escrevia confusos gatafunhos e deixava frases soltas sobre literatura, misticismo e astrologia no seu livro de notas e, assinando sob o então novel pseudónimo de Álvaro de Campos, enviava uma carta indignada ao Diário de Notícias, reclamando contra o tratamento feito nas suas páginas ao Nº1 da revista Orpheu, a um artigo ali contido e escrito por “um tal” de Fernando Pessoa, e ainda ao livro, então publicado, de Mário de Sá Carneiro. A carta termina assim: ” espero da lealdade jornalística de V.Exa a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem.”

Que foi o que fiz.

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